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Compadre e Comadre…

01 Dez

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Sou do tempo em que ainda se faziam visitas.
Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.

Ninguém avisava nada, o costume era chegar de paraquedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.

– Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.

E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.

– Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!

A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro… casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.

Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas – e dizia:

– Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.

Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite… tudo sobre a mesa.

Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também.
Pra que televisão? Pra que rua? Pra que droga?
A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança… Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam…. era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade…

Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos.
E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida.
Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa.. A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, também ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos… até que sumissem no horizonte da noite.

O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail… Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:

– Vamos marcar uma saída! … – ninguém quer entrar mais.

Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.

Casas trancadas… Pra que abrir?
O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite…

Que saudade do compadre e da comadre!

José Antônio Oliveira de Resende
Professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura,
da Universidade Federal de São João del-Rei

***************************

Recebi este texto por e-mail e compartilho, pois concordo com o autor e também porque faço parte de uma família que mesmo com muita dificuldade tenta preservar no que ainda é possível, estes costumes. Infelizmente, com muita dificuldade mesmo!

Verdade que devemos aprender a nos adaptar as mudanças inevitáveis, mas quanto a isso não… não faço nenhuma questão e não me importo se me considerarem ultrapassada, pois não abro mão da convivência fraterna mesmo.

Não aquela expressada na correria do dia a dia e superficialmente , mas a vivenciada na presença, no carinho do toque, do abraço sincero, do gesto concreto no tempo para ouvir, para falar sem pressa, sem olhar a todo o momento para o relógio.

E sem pisarmos em ovos, pensando na possibilidade de estar sendo inconvenientes… Talvez eu esteja, de uma certa forma, sendo um pouco rebelde neste sentido, mas é o que sinto.

Silvia Gomes

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3 Comentários

Publicado por em 01/12/2012 em Reflexão

 

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3 responses to “Compadre e Comadre…

  1. Cláudio Viana Silveira

    02/12/2012 at 16:34

    “…O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail… Cada um na sua e ninguém na de ninguém…” Lamentável! A par de toda a mídia à disposição, deveria sobrar um ‘espaço’ para as cumadragens e cumpadragens. Muito lindos a crônica e arremate. Obrigado e um abraço, Silvia. Claudio.

     
  2. Fernanda

    06/12/2012 at 9:39

    Hoje somos estranhos dentro de casa, estamos ali um ao lado do outro, mas as mentes não estão em sintonia, é o facebook, o msn, o celular e os assuntos escasseiam. Não se brinca mais com os filhos, falta tempo para o diálogo… Lembro em minha casa a festa que era quando faltava luz, nós nos reencontrávamos… meu pai na luz da vela fazendo gestos com as mãos que se transformavam em monstros ou em bichos engraçados na parede… que momentos divertidos… gargalhadas, histórias, ficávamos mais próximos, sem a TV, sem a novela, sem o jornal…
    Até isso acabou… hoje os notebook tem baterias que duram por horas e os celulares também…. estamos cada dia mais distantes uns dos outros e o que é pior nos acreditamos mais próximos… Quais os momentos que guardo na lembrança como os mais doces de minha infância? Os dos dias sem luz, onde as brincadeiras eram mais divertidas, onde os sorrisos eram mais francos… Quais lembranças os meus filhos vão guardar?

     
    • Silvia Gomes

      06/12/2012 at 20:22

      É Fernanda! Tuas lembranças são parecidas com as minhas.
      Lembro da minha infância, quando os primos vinham passar o fim de semana e eram incontáveis as brincadeiras…
      No verão então, quando chovia, os banhos de chuva correndo nas lagoas, o riso solto na mesa do almoço… A tv recém tinha chegado em casa e não nos prendia a atenção como hoje, nem se falava em computador, muito menos celular. Mas os tempos são outros e nos resta resistir e tentar passar para nossos filhos e sobrinhos um pouco desta vivência.
      Acredito que eles não percebam, mas o vazio que atualmente impera na nossa juventude é com certeza a falta desta magia do contato pessoal que nós tivemos o privilégio de experimentar nesta época da vida.
      Infelizmente cada vez menos hoje isso é vivido, tornando as pessoas mais tristes e melancólicas.
      Obrigado pela delicadeza do teu comentário! Abraços!

       

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