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CONTOS ESPÍRITAS

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EXPLICAÇÃO DO MESTRE

Em plena conversação edificante, Sara, a esposa de Benjamim, o criador de cabras, ouvindo comentários do Mestre, nos doces entendimentos do lar de Cafarnaum, perguntou, de olhos fascinados pelas revelações novas:
– A idéia do Reino de Deus, em nossas vidas, é realmente sublime; todavia, como iniciar-me nela? Temos ouvido as pregações à beira do lago e sabemos que a Boa Nova aconselha, acima de tudo, o amor e o perdão… Eu desejaria ser fiel a semelhantes princípios, mas sinto-me presa a velhas normas. Não consigo desculpar os que me ofendem, não entendo uma vida em que troquemos nossas vantagens pelos interesses dos outros, sou apegada aos meus bens e ciumenta de tudo o que aceito como sendo propriedade minha.

A dama confessava-se com simplicidade, não obstante o sorriso desapontado de quem encontra obstáculos quase invencíveis.

– Para isso – comentou Pedro -, é indispensável a boa vontade.

– Com fé em Nosso Pai Celestial – aventurou a esposa de Simão -, atravessaremos os tropeços mais duros.

Em todos os presentes transparecia ansiosa expectativa quanto ao pronunciamento do Senhor, que falou, em seguida a longo silêncio:

– Sara, qual é o serviço fundamental de tua casa?

– É a criação de cabras – redargüiu a interpela, curiosa.

– Como procedes para conservar o leite inalterado e puro no beneficio doméstico?

– Senhor, antes de qualquer providência, é imprescindível lavar, cautelosamente, o vaso em que ele será depositado. Se qualquer detrito ficar na ânfora, em breve todo o leite se toca de franco azedume e já não servirá para os serviços mais delicados.

Jesus sorriu e explanou:

– Assim é a revelação celeste no coração humano. Se não purificarmos o vaso da alma, o conhecimento, não obstante superior, se confunde com as sujidades de nosso íntimo, como que se degenerando, reduzindo a proporção dos bens que poderíamos recolher. Em verdade, Moisés e os Profetas foram valorosos portadores de mensagens divinas, mas os descendentes do Povo Escolhido não purificaram suficientemente o receptáculo vivo do espírito para recebê-las. É por isto que os nossos contemporâneos são justos e injustos, crentes e incrédulos, bons e maus ao mesmo tempo. O leite puro dos esclarecimentos elevados penetra o coração como alimento novo, mas aí se mistura com a ferrugem do egoísmo velho. Do serviço renovador da alma restará, então, o vinagre da incompreensão, adiando o trabalho efetivo do Reino de Deus.

A pequena assembléia, na sala de Pedro, recebia a lição sublime e singela, comovidamente, sem qualquer interferência verbal.

O Mestre, porém, levantando-se com discrição e humildade, afagou os cabelos da senhora que o interpelara e concluiu, generoso:

– O orvalho num lírio alvo é diamante celeste, mas, na poeira da estrada, é gota lamacenta. Não te esqueças desta verdade simples e clara da Natureza.

Chico Xavier (médium)
Neio Lúcio (espírito) Livro: Jesus no Lar

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CAROLINA E AGENOR

– Não posso mais! Estou resolvida!
– Não diga isso. Fique mais calma. Somos espíritas e…
– Não, Agenor! Não quero mais filhos. Nem esse e nem a possibilidade de outros. Estou decidida.
– Se houvesse realmente necessidade… Mas você está forte, robusta… Isso é meia morte. Pense bem. Olhe o “deixai vir a mim os pequeninos!…”.
– Não. É muita gente que faz isso, por que não posso fazer? Vou agora ao hospital tratar de meu caso… Estou resolvida.
Assim falando, Carolina ralhou com os três filhos pequenos e deixou a casa, nervosa, acompanhada de Agenor.


– Quero falar com o doutor. Ele está?
– Minha senhora, ele está operando agora. Não deve demorar muito.
Nisso, um senhor ao lado pergunta:
– Quem ele está operando? É uma senhora loura?
E o porteiro, respeitoso, respondeu em voz baixa:
– Não, meu senhor. É uma senhora que acaba de chegar perdendo muito sangue. É alguma coisa de aborto. Está passando muito mal.
Agenor olhou significativamente para Carolina…


– A senhora loura é sua parenta? – pergunta Carolina, ao vizinho da poltrona.
– Sim. É minha tia.
– De que se vai operar?
– Ela, minha senhora, desde que perdeu o último filho, está perturbada. Vão fazer uma operação na cabeça dela, para ver se melhora o gênio.
Agenor voltou a olhar expressivamente para Carolina…


Eis que passam dois homens em avental branco, e Carolina, atenta ao movimento em torno, na expectativa de falar ao facultativo, ouviu, de relance:
– As cifras estatísticas de câncer uterino são avultadas – disse um.
– E aqui, na região, a incidência é grande? – pergunta o outro.
– Muitíssimo. Basta ver que a enfermaria feminina sempre está com três a quatro casos…
Agenor, ainda uma vez, olhou incisivamente para Carolina…


Carolina levanta-se, resoluta.
Agenor segue.
Vão transpondo a porta principal da casa de saúde, quando o solícito porteiro inquire:
– Não vai esperar, minha senhora?
– Não, meu amigo. O doutor está demorando. Preciso cuidar das crianças. Obrigada. Até logo.
– Então, Calu, em que ficamos? – pergunta Agenor, ao descer a rampa do hospital.
E Carolina responde:
– Não, Agenor, dos males o menor. Fico assim mesmo…

Waldo Vieira (médium)
Hilário Silva (espírito)

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MESMO FERIDO

O rapaz fora rudemente esbofeteado num baile. Em sã consciência, não sentia culpa alguma. Nada fizera que pudesse ofender. Por mera desconfiança, o agressor esmurrara-lhe o rosto. “Covarde, covarde” – haviam dito os circunstantes.

Ele, porém, limpando a face sanguinolenta, compreendeu que, desarmado, não seria prudente medir forças. Jurara, porém, vingar-se. E, agora, munido de um revólver, aguardava ocasião. Um amigo, no entanto, percebendo-lhe a alma sombria, instou muito e conduziu-o a uma reunião da Doutrina Espírita.

Desinteressado, ouviu preces e pregações, comentários e apontamentos edificantes.

Ao término da sessão, porém, um amigo espiritual, pela mão de um dos médiuns presentes, escreveu bela página sobre o perdão, na qual surgiam afirmações como estas:

– A justiça real vem de Deus.

– Ninguém precisa vingar-se.

– Mesmo ferido, serve e perdoa.

– A corrigenda do ofensor pode ser amanhã.

O jovem ouviu atentamente e saiu pensando, pensando…

Na manhã seguinte, topou, face a face, o desafeto, mas recordou a lição e conteve-se. Por uma semana se repetiu o reencontro, e, por sete vezes, freou-se prudentemente.

Dias depois, porém, retornado ao trabalho, encontra um enterro e descobre-se. Só então vem a saber que o grande esmurrador, aquele que o ferira, morrera na véspera, picado por escorpião.

Chico Xavier (médium)
Hilário Silva (espírito) Livro: Ideias e ilustrações

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SOLUÇÃO NATURAL

Os Espíritos benfeitores já não sabiam como atender à pobre senhora obsidiada.

Perseguidor e perseguida estavam mentalmente associados à maneira de polpa e casca no fruto.

Os amigos desencarnados tentaram afastar o obsessor, induzindo a jovem senhora a esquecê-lo, mas debalde.

Se tropeçava na rua, a moça pensava nele…

Se alfinetava um dedo em serviço, atribuía-lhe o golpe…

Se o marido estivesse irritado, dizia-se vitima do verdugo invisível…

Se a cabeça doía, acusava-o…

Se uma xícara espatifasse, no trabalho doméstico, imaginava-se atacada por ele…

Se aparecesse leve dificuldade econômica, transformava a prece em crítica ao desencarnado infeliz…

Reconhecendo que a interessada não encontrava libertação, por teimosia, os instrutores espirituais ligaram os dois – a doente e o acompanhante invisível – em laços fluídicos mais profundos, até que ele renasceu dela mesma, por filho necessitado de carinho e compaixão.

Os benfeitores descansaram.

O obsessor descansou.

A obsidiada descansou.

O esposo dela descansou.

Transformar obsessores em filhos, com a bênção da Providência Divina, para que haja paz nos corações e equilíbrio nos lares, muita vez é a única solução.

Chico Xavier (médium)
Hilário Silva (espírito

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FELIZ ENGANO

Amaro M. Silveira, homem de pouca cultura, mas de virtudes conhecidas, como sacerdote do lar, era o condutor seguro dos interesses familiares. Sabia ser pai, irmão e amigo dos frutos de sua carne.

Símbolo de dedicação fraternal, detinha a estima da comunidade em que vivia. Raros eram aqueles que não reconheciam a grandeza de sua alma. Era sempre visto distribuindo pão e carinho, sem arroubos de afetação. Como precioso agente da matemática divina, multiplicava alegria. Dividia a dor, somava esforços e diminuía dificuldades.

Na sociedade espírita a que se filiara, era padrão de pontualidade, responsabilidade no trato das revelações doutrinárias e permanente bom ânimo. Jamais alguém lhe anotara as ausências sem motivos nas sessões que freqüentava, ainda que o barro da rua lhe embaraçasse os passos e a borrasca desabasse ameaçadora. Nas mais insignificantes tarefas sua fé resplendia.

Invariavelmente, à noite, saturado de paz infinita e debaixo se intenso cansaço, punha-se a orar. Comovido, via-se rodeado de esmeraldinas cintilações e chorava agradecido, alimentando o desejo de conhecer o benfeitor que o abraçava e que à feição de um guardião amoroso lhe tutelava os passos, amparando-o nas lutas diárias.

Por muitas vezes, durante anos, o fenômeno se repetiu.

Cada vez mais feliz, Amaro não escondia o desejo sincero de beijar as mãos do venerável amigo que lhe garantia a vitória no Bem.

Até que um dia, a máquina incessante da vida, por solicitação do tempo implacável, determinou o seu retorno ao luminoso país da verdade.

Após orar, como sempre fizera na simplicidade de suas intenções, mentalizou a presença do companheiro celestial.

Não poderia esperar tamanha surpresa. Agora, liberto do fardo físico, verificava deslumbrado que o benfeitor era ele mesmo. As luzes que o rodeavam mais intensamente nos momentos culminantes da prece vinham de sua própria constituição perispiritual. Eram a expressão real e sublime do seu amor ao próximo. Eram a auréola radiosa de sua humildade que conquistara no serviço desinteressado com o Cristo.

Maria Abadia R. de Almeida  (Revista Espírita)

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ONDE ESTARÁ

A senhora, elegantemente trajada, comparece na portaria do lar espírita para buscar a criança que pretendia adotar.
– Quero perfilhar! – dizia a dama – Tomarei todas as providências, mas quero escolher.
E a diretora começou as apresentações.
– Esta não – falava a senhora, fitando doce menina de olhos escuros -, é morena demais.
E analisando uma por uma, continuava as apreciações:
– Esta não, tem jeito de serelepe…
– Este não, tem olhos de gato assustado…
– Este não, está remelento…
– Este também não, é um garoto de olhar muito frio…
– Esta não, é muito anêmica…
Findo o exame de trinta e dois pequeninos, a senhora perguntou:
– E os outros? Onde estará a criança que eu busco?
Mas a diretora respondeu com serenidade:
– Minha irmã, a senhora me perdoe, mas o nosso estoque acabou, e creio que agirá com acerto se procurar a sua encomenda no Céu, pois, nas condições que deseja, penso que somente encontrará a sua criança entre os anjos…

Waldo Vieira (médium)
Hilário Silva (espírito) Livro: Almas em Desfile

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DOENTES E DOENÇAS

O respeito aos doentes é dever inatacável, mas vale descrever a ligeira experiência para a nossa própria orientação.

Penetráramos o nosocômio, acompanhando um assistente espiritual que ingressava no serviço pela primeira vez, e, por isso mesmo era, ali, tão adventício em matéria de enfermagem, quanto eu próprio.

Atender a quatro irmãos encarnados sofredores, o nosso encargo inicial nas tarefas do magnetismo curativo. Designá-los-emos por números.

Em arejado aposento, abeiramo-nos deles, depois de curta oração.

O amigo de número um arfava em constrangedora dispnéia, suplicando em voz baixa:

– Valei-me, Senhor!… Ai Jesus!… Ai Jesus!… Socorrei-me!… Ó Divino Salvador!… Curai-me e já não desejarei no mundo outra coisa senão servir-vos!…

O segundo implorava, sob as dores abdominais em que se contorcia:

– Ó meu Deus, meu Deus!… Tende misericórdia de mim!… Concedei-me a saúde e procurarei exclusivamente a vossa vontade…

Aproximamo-nos do terceiro, que, mal agüentando tremenda cólica renal em recidiva, tartamudeava ao impacto de pesado suor:

– Piedade, Jesus!… Salvai-me!… Tenho mulher e quatro filhos… Salvai-me e prometo ser-vos fiel até a morte!…

Por fim, clamava o de número quatro, carregando severa crise de artrite reumatóide:

– Jesus! Jesus!… Ó Divino Médico!… Atendei-me!… Amparai-me!… Dai-me a saúde, Senhor, e dar-vos-ei a vida!…

Nosso orientador enterneceu-se. Comovia-nos, deveras, ouvir tão carinhosas referências a Deus e ao Cristo, tantos apelos com inflexão de confiança e ternura.

Sensibilizados, pusemo-nos em ação.

O chefe esmerou-se.

Exímio conhecedor de ondas e fluidos, consertou vísceras aqui, sanou disfunções ali, renovou células mais além e o resultado não se fez esperar. Recuperação quase integral para todos. Entramos em prece, agradecendo ao Senhor a possibilidade de veicular-lhe as bênçãos.

No dia imediato, quando voltamos ao hospital, pela manhã, o quadro era diverso.

Melhorados com segurança, os doentes já nem se lembravam do nome de Jesus.

O enfermo de número um se reportava, exasperado, ao irmão que faltara ao compromisso de visitá-lo na véspera:

– Aquele maldito pagará!… Já estou suficientemente forte para desancá-lo… Não veio como prometeu, porque me deve dinheiro e naturalmente ficará satisfeito em saber-me esquecido e morto…

O segundo esbravejava:

– Ora essa!… Por que me vieram perguntar se eu queria orações? Já estou farto de rezar… Quero alta hoje!… Hoje mesmo!… E se a situação em casa não estiver segundo penso, vai haver barulho grosso!

O terceiro reclamava:

– Quem falou aqui em religião? Não quero saber disso… Chamem o médico…

E gritando para a enfermeira que assomara à porta:

– Moça, se minha mulher telefonar, diga que sarei e que não estou…

O doente de número quatro vociferava para a jovem que trouxera o lanche matinal:

– Saia de minha frente com o seu café requentado, antes que eu lhe dê com este bule na cara!…

Atônitos, diante da mudança havida, recorremos à prece, e o supervisor espiritual da instituição veio até nós, diligenciando consolar-nos e socorrer-nos.

Após ouvir a exposição do mentor que se responsabilizara pelas bênçãos recebidas, esclareceu bem-humorado:

– Sim, vocês cometeram pequeno engano. Nossos irmãos ainda não se acham habilitados para o retorno à saúde, com o êxito desejável. Imprescindível baixar a taxa das melhoras efetuadas…

E, sem qualquer delonga, o superior podou energias aqui, diminuiu recursos ali, interferiu em determinados centros orgânicos mais além, e, com grande surpresa para o nosso grupo socorrista, os irmãos enfermos, com ligeiras alterações para a melhoria, foram restituídos ao estado anterior, para que não lhes viesse a ocorrer coisa pior.

Chico Xavier (médium)
Irmão X (espírito)  Livro: Idéias e Ilustrações

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OS MAIORES INIMIGOS

Certa feita, Simão Pedro perguntou a Jesus:

– Senhor, como saberei onde vivem nossos maiores inimigos? Quero combatê-los, a fim de trabalhar com eficiência pelo Reino de Deus.

Iam os dois de caminho entre Cafarnaum e Magdala, ao sol rutilante de perfumada manhã.

O Mestre ouviu e mergulhou-se em longa meditação.

Insistindo, porém, o discípulo, ele respondeu benevolamente:

– A experiência tudo revela no momento preciso.

– Oh! – exclamou Simão, impaciente – a experiência demora muitíssimo.

O Amigo Divino esclareceu, imperturbável:

– Para os que possuem “olhos de ver” e “ouvidos de ouvir”, uma hora, às vezes, basta ao aprendizado de inesquecíveis lições.

Pedro calou-se, desencantado.

Antes que pudesse retornar às interrogações, notou que alguém se esgueirava por trás de velhas figueiras, erguidas à margem. O apóstolo empalideceu e obrigou o Mestre a interromper a marcha, declarando que o desconhecido era um fariseu que procurava assassiná-lo. Com palavras ásperas desafiou o viajante anônimo a afastar-se, ameaçando-o, sob forte irritação. E quando tentava agarrá-lo, à viva força, diamantina risada se fez ouvir. A suposição era injusta. Ao invés de um fariseu, foi André, o próprio irmão dele, quem surgiu sorridente, associando-se à pequena caravana.

Jesus endereçou expressivo gesto a Simão e obtemperou:

– Pedro, nunca te esqueças de que o medo é um adversário terrível.

Recomposto o grupo, não haviam avançado muito, quando avistaram um levita que recitava passagens da Tora e lhes dirigiu a palavra, menos respeitoso.

Simão inchou-se de cólera. Reagiu e discutiu, longe das noções de tolerância fraterna, até que o interlocutor fugiu, amedrontado.

O Mestre, até então silencioso, fixou no aprendiz os olhos muito lúcidos e inquiriu:

– Pedro, qual é a primeira obrigação do homem que se candidata ao Reino Celeste?

A resposta veio clara e breve:

– Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

– Terás observado a regra sublime, neste conflito? – continuou o Cristo, serenamente – recorda que, antes de tudo, é indispensável nosso auxílio ao que ignora o verdadeiro bem e não olvides que a cólera é um perseguidor cruel.

Mais alguns passos e encontraram Teofrasto, judeu grego dado à venda de perfumes, que informou sobre certo Zeconias, leproso curado pelo profeta nazareno e que fugira para Jerusalém, onde acusava o Messias com falsas alegações.

O pescador não se conteve. Gritou que Zeconias era um ingrato, relacionou os benefícios que Jesus lhe prestara e internou-se em longos e amargosos comentários, amaldiçoando-lhe o nome.

Terminando, o Cristo indagou-lhe:

– Pedro, quantas vezes perdoarás a teu irmão?

– Até setenta vezes sete – replicou o apóstolo, humilde.

O Amigo Celeste contemplou-o, calmo, e rematou:

– A dureza é um carrasco da alma.

Não atravessaram grande distância e cruzaram com Rufo Grácus, velho romano semiparalítico, que lhes sorriu, desdenhoso, do alto da liteira sustentada pelos escravos fortes.

Marcando-lhe o gesto sarcástico, Simão falou sem rebuços:

– Desejaria curar aquele pecador impenitente, a fim de dobrar-lhe o coração para Deus.

Jesus, porém, afagou-lhe o ombro e ajuntou:

– Por que instituiríamos a violência no mundo, se o próprio Pai nunca se impôs a ninguém?

E, ante o companheiro desapontado, concluiu:

– A vaidade é um verdugo sutil.

Daí a minutos, para repasto ligeiro, chegavam à hospedaria modesta de Aminadab, um seguidor das idéias novas.

À mesa, um certo Zadias, liberto de Cesaréia, se pôs a comentar os acontecimentos políticos da época. Indicou os erros e desmandos da Corte Imperial, ao que Simão correspondeu, colaborando na poda verbalística. Dignitários e filósofos, administradores e artistas de além-mar sofreram apontamentos ferinos. Tibério foi invocado com impiedosas recriminações.

Finda a animada palestra, Jesus perguntou ao discípulo se acaso estivera alguma vez em Roma.

O esclarecimento veio depressa:

– Nunca.

O Cristo sorriu e observou:

– Falaste com tamanha desenvoltura sobre o Imperador que me pareceu estar diante de alguém que com ele houvesse privado intimamente.

Em seguida, acrescentou:

– Estejamos convictos de que a maledicência é algoz terrível.

O pescador de Cafarnaum silenciou, desconcertado.

O Mestre contemplou a paisagem exterior, fitando a posição do astro do dia, como a consultar o tempo, e, voltando-se para o companheiro invigilante, acentuou, bondoso:

– Pedro, há precisamente uma hora procurava situar o domicilio de nossos maiores adversários. De então para cá, cinco apareceram, entre nós: o medo, a cólera, a dureza, a vaidade e a maledicência… Como reconheces, nossos piores inimigos moram em nosso próprio coração.

E, sorrindo, finalizou:

– Dentro de nós mesmos, será travada a guerra maior.

Chico Xavier (médium)
Irmão X (espírito) Livro: Luz Acima

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O GRANDE CAMINHO

Um homem de muita fé morava num vale extenso e triste e por que assinalasse amarga solidão, elevou-se em espírito ao Senhor e pediu-lhe, atormentado:

– Benfeitor Eterno, vejo-me vencido pelo desânimo… Que fazer para melhorar o ambiente em que respiro?

– Educa a terra em que foste localizado – aconselhou o Divino Orientador.

– Usa o alvião e o arado, a enxada e a semente e, em breve, o solo dar-te-á o pão e alegria.

O servo regressou e seguiu-lhe o conselho.

Com o aperfeiçoamento da gleba, porém, surgiram colonos variados e as rixas explodiram, na disputa dos terrenos em torno.

Alarmado, o devoto retornou ao Senhor e clamou:

– Inefável Amigo, melhorada a região a que dei minha ajuda, vieram os companheiros da Humanidade e com eles chegaram inquietantes enigmas. Não mais vivo só, entretanto, as feras da posse, os dragões do ciúme, as serpes do despeito e os monstros da inveja bramem e se arrastam junto de mim… Que fazer para o sustento da paz?

– Educa os irmãos que te cercam a experiência – determinou o magnânimo interpelado, e explica-lhes que o sol brilha para justos e injustos, que o trabalho sinceramente respeitado e bem dividido faz a riqueza de todos e que sem a cooperação fraternal o dever é um cárcere insuportável… Usa a escola e o livro, a palavra e a própria virtude! O tempo assegurar-te-á harmonia e vitória.

O crente agiu em consonância com o ensinamento recebido e, por que prosperasse o encanto social na colônia, desposou uma jovem que lhe parecia responder ao ideal de ventura, no entanto, com o casamento vieram os filhos e os problemas. A alma da companheira sofria incompreensível divisão entre ele e os rebentos do lar que o crivavam de pesares e preocupações.

Aflito, voltou à Amorosa Presença e solicitou:

– Todo Compassivo, tenho minh´alma sangrando de sofrimento… Como proceder para encontrar o equilíbrio, junto da mulher e dos filhos que me deste?

– Educa-os e alcançarás a bênção merecida, – disse-lhe o Abnegado Condutor. – Através de teus próprios exemplos, usa a boa vontade e a renúncia e atingirás, um dia, o fruto de preciosa compreensão.

O trabalhador desceu à Terra e atendeu à advertência. Contudo, com o crescimento da família, multiplicada agora em lares diversos, notou que os parentes padeciam, desarvorados, a visitação da enfermidade e da morte.

Agoniado, compareceu diante do Senhor e Implorou:

– Protetor Infatigável, estou conturbado, em pavoroso desalento… Os corações que me confiastes tremem de angústia e medo, ante a ventania gelada do túmulo… Que fazer para consolá-los e obter-lhes conformação?

– Educa-os para a vida, cujas provas são lições de subido valor – respondeu-lhe o Mentor Celeste, – Ensina-lhes que a doença é um gênio benfazejo e que o sepulcro é passagem para a imortalidade triunfante. Revela-lhes, porém, semelhantes verdades com a tua própria demonstração de coragem e submissão incessante à Infinita Sabedoria.

O homem tornou ao seu campo de luta e devotou-se à tarefa que lhe cabia com humildade e bom ânimo.

Quando o tempo lhe enrugou a face, alvejando-lhe os cabelos, fatigado ao peso das responsabilidades que trazia no coração, procurou o Senhor e implorou em lágrimas:

– Fiador de meus dias, compadece-te de mim!… Meu corpo agora é um instrumento cansado, sinto frio em meus ossos!… Tenho saudades de ti, Senhor!… Que fazer para transferir-me, em definitivo, para o Céu?

– Educa-te e raiará para teu espírito a luminosa libertação, educa-te e o próprio mundo te elevará à glória suprema da vida espiritual!

– Senhor, – ponderou o fiel devoto – ensinaram-me na Terra que fora da caridade não há salvação e sempre respeitei a caridade, executando-te as ordens divinas… Ter-se-iam enganado os teus mensageiros no mundo?

O Mestre sorriu e obtemperou:

– Os emissários celestiais não se equivocaram na afirmativa. Realmente, fora da caridade não há salvação, mas fora da educação não há caridade bem conduzida…

E por que o crente meditasse em lacrimoso silêncio, o Senhor concluiu:

– A caridade é a chave que abre as portas do Céu, mas a educação é o grande caminho que conduz até ele…

Foi então que o aprendiz leal voltou às obrigações que lhe competiam no mundo e consagrou o resto da existência ao serviço de educar-se, com o que passou a educar os outros com mais segurança.

Chico Xavier (médium)
IrmãoX(espírito)                                                                                                                                                                                                         Fonte: Livro: Relatos da Vida

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 DEVER CRISTÃO

Rossi e Alves eram diretores de conhecido templo espírita e se davam muito bem na vida particular. Afinidade profunda. Amizade recíproca. Sempre juntos nas boas obras, integravam-se perfeitamente no programa do bem.

Alves, com desapontamento, passou a saber que Rossi, nas três noites da semana sem atividades doutrinárias, era visto penetrando a porta de uma casa evidentemente suspeita, lugar tristemente adornado para encontros clandestinos de casais transviados.

Persistindo semelhante situação por mais de um mês, Alves, certa noite, informado de que o amigo entrara na casa referida, veio esperá-lo à saída.
Dez, onze, meia-noite…

Alguns minutos depois de zero hora, Rossi saiu calmo e o amigo abordou-o.
– Meu caro – advertiu Alves sisudo -, não posso vê-lo reiteradamente neste lugar. Você é casado, pai de família e, além de tudo, carrega nos ombros a responsabilidade de mentor em nossa Casa. Nada podemos condenar, mas você não ignora que álcool e entorpecentes, aí dentro, andam em bica…

Rossi coçou a cabeça num gesto característico e observou:

– Não há nada. Estou apenas cumprindo um dever cristão.
– Dever cristão?
– Sim, a filha de um dos meus melhores amigos está freqüentando este círculo. Jovem inexperiente. Ave desprevenida em furna de lobos. Enganada por lamentável explorador de meninas, acreditou nele… Mas a batalha está quase ganha. Convidei-a a pensar. Há mais de um mês prossegue a luta. Hoje, porém, viu com os próprios olhos o logro de que é vítima. Acredito que amanhã surgirá renovada…

E ante os olhos desconfiados do amigo:

– Você sabe. É preciso agir, sem rumor, sem escândalo. Quem sabe? Talvez em futuro próximo a invigilante pequena possa encontrar companheiro digno. E ser mãe respeitada.

Alves riu-se às pampas, de maneira escarninha, e falou:

– Vou ver se é verdade.
– Não, não! Não vá! – pediu Rossi, em súplica ansiosa.
– Tem medo de ser apanhado em mentira? -disse Alves, com a suspeita no rosto.

E sem mais nem menos entrou casa à dentro, encontrando, num pequeno salão, sua própria filha chorando ao pé de um cavalheiro desconhecido…

Waldo Vieira ( médium )
Hilário Silva ( espírito ) Livro:  A vida escreve

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A MENTIRA

Sei da história de um pastor americano ou escocês (já não me lembro o hemisfério desse conto) o qual, uma vez, ao largo e atento auditório que costumava ouvi-lo, fez saber que no dia seguinte iria falar sobre o pecado da mentira.

– Vou pregar amanhã sobre a mentira, advertiu o bom pastor. Peço, porém, a todos os meus queridos ouvintes que, para melhor preparação do que irei dizer, leiam todo o capitulo dezessete de São Marcos. Considero indispensável essa leitura prévia.

No dia seguinte, compareceram todos. E logo, o pastor inquiriu previamente.

– Aqueles que leram o capitulo 17 de São Marcos, conforme a minha recomendação, queiram levantar-se.

Levantaram-se todos como um só homem. E o pastor prosseguiu:

– Sois vós realmente os verdadeiros ouvintes do meu sermão de hoje sobre a mentira. Porque, em verdade, não existe o capitulo dezessete. O Evangelho de São Marcos tem apenas 16 capítulos.

Antônio F. Rodrigues                                                                                                                                                                    

Livro: Antologia Espírita e Popular – Mensagens dos Mestres

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A LENDA DAS COTOVIAS

Certa feita, os emissários benditos, por designação celestial, foram à floresta com a tarefa de visitarem os ninhos de todas as espécies de aves para distribuir, a cada agrupamento, as suas missões junto à Terra.

Todas as aves foram agraciadas com tamanho e beleza, visão e precisão na caça pela sobrevivência e perfeição no vôo.

Enquanto os trabalhadores do Senhor cumpriam suas tarefas, alguns pássaros envaideceram-se e festejavam demonstrando uns aos outros o que haviam recebido.

As cotovias, porém, sofreram toda a sorte de desprezo e escárnio. Diziam que elas não possuíam importância para Deus, pois os melhores “dons” haviam sido atribuídos aos mais experientes, maiores e melhores. De que serviria, então, o dom do canto diante dos grandes desafios da vida?

Após certo tempo, os emissários retornaram à floresta com o intuito de verificarem como foram utilizados os “dons” que haviam sido depositados naqueles corações. Alguns os utilizaram de forma digna e correta, porém outros desvirtuaram seus caminhos e entregaram-se totalmente à vaidade.

Antes de partirem, os representantes divinos encontraram as cotovias resignadas e aconchegadas em seus ninhos. Ao se aproximarem, as pequeninas derramavam lágrimas e, emocionadas, cantavam corajosamente em perfeita afinação, louvando e agradecendo todas as lições que aprendiam dia a dia com as dificuldades do mundo e com os desafios de enfrentar o impiedoso prado, fazendo suas dores converterem-se em melodias, sem lamento ou reclamações, até o momento de suas mortes.

Tamanha era a força daquele canto que todos paravam para escutá-lo e, assim, sentiam suas almas tocadas por profundo alívio e alegria.

Embevecidos pela majestosa cantoria, os trabalhadores celestes reconheceram o esforço daquelas humildes criaturas e, como recompensa, quando libertas dos infortúnios do corpo emplumado, passavam a habitar as moradas celestiais, como membros das orquestras de luzes, com a missão especial de derramar sobre a humanidade as melodiosas virtudes: coragem, esperança e fé.

Gilvanize Pereira (médium)
Ferdinando (espírito)  Livro: Horizonte das Cotovias

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ESTRELA DE CINCO RAIOS

Quando psicografava o livro Paulo e Estevão, do Espírito Emmanuel, Francisco Cândido Xavier via, ao seu lado, um sapo feio, gorduchão, que o amedrontava muito…

No princípio, distava-lhe alguns metros. Depois, à proporção que a grande obra chegava ao fim, o sapo estava quase aos pés do médium.
Isto lhe dava um mal-estar intraduzível.

Emmanuel, observando-lhe o receio, diz-lhe:
– O sapo é um animal inofensivo, um abnegado jardineiro, que limpa os jardins dos insetos perniciosos. Não compreendo, pois, sua antipatia pelo pobre batráquio… Procure observá-lo mais de perto, com simpatia, e acabará sentindo-lhe estima.

Após ponderação justa de seu Guia, o Chico começou a ter simpatia pelo sapo, e achar-lhe até certa beleza, particular utilidade, um verdadeiro servidor.

Terminou a recepção do formoso livro e Emmanuel, completando o asserto, pondera-lhe, bondoso:
– O homem, Chico, será um dia, uma Estrela de Cinco Raios, quando possuir os pés, as mãos, e a cabeça alevantados, liberados.
Já possui três raios: as mãos e a cabeça, faltando-lhes os dois pés, os quais serão libertados quando perder a atração da Terra.

Existem, no entanto, germes, animais, seres outros, com os cinco raios voltados para baixo, para a Terra, sugando-lhe o seio, vivendo de sua vida.

Assim é o sapo, coitado, que luta intensamente para levantar um raio, pelo menos a cabeça. O boi já possui a cabeça alevantada, já que progrediu um pouco.

É preciso, pois, que o Homem sinta a graça que já guarda e lute, através dos três raios já suspensos, pela aquisição dos outros dois.
Que saiba sofrer, amar, perdoar, renunciar, até libertar-se do erro, dos vícios, das paixões, e, desta forma, terá livres os pés para transformar-se numa Estrela de Cinco Raios e participar da vida de outras Constelações, em meio das quais brilha uma Estrela Maior, que é Jesus.

Ramiro Gama                                                                                                                                                                                                Livro: Chico Xavier na Intimidade

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A SOMBRA DO BURRO

Certa vez, promovendo uma assembléia pública em Atenas para tratar de altos interesses da pátria grega, Demóstenes viu-se apupado pela turba impaciente, que fazia menção de retirar-se sem ouvi-lo. Então, elevando a voz, disse que tinha uma historia interessante a contar. Obteve, assim, silêncio e atenção, e começou:

– Certo jovem, precisando ir de sua casa até Mégara durante o auge do verão, alugou um burro, pondo-se a caminho. Quando o sol ficou a pino, ardentíssimo, tanto o moço como o dono do animal alugado tiveram vontade de sentar-se à sombra do burro, e começaram a empurrar-se mutuamente, a fim de ficar com o lugar. Dizia o dono do animal que apenas alugara o burro e não a sua sombra, e o outro afirmava que tendo pago o aluguel do burro, pagara também o de sua sombra, pois tudo quanto pertencia ao burro lhe fora alugado com ele…

A esta altura. Demóstenes levantou-se e fez menção de retirar-se. A multidão protestou, desejosa de ouvir o resto da historia. Foi então que o prodigioso orador, erguendo-se em toda a sua altura, e encarando com firmeza o auditório, declarou, a voz trovejante:

– Atenienses! Que espécie de homens sois, que insiste em saber a historia da sombra de um burro e recusais tomar conhecimento dos fatos mais graves que vos dizem respeito?

Só então pode fazer o discurso que pretendia, para um auditório envergonhado e atento, que, afinal, ficou sem saber o fim da historia da sombra do burro.

Antônio F. Rodrigues
Livro:Antologia Espírita e Popular “Mensagens dos Mestres”
 

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NUM DOMINGO DE CALOR

Benedita Fernandes, abnegada fundadora da Associação das Senhoras Espíritas Cristãs, de Araçatuba, no Estado de São Paulo, foi convidada para uma reunião de damas consagradas à caridade, para exame de vários problemas ligados a obras de assistência. E porque se dedicava, particularmente, aos obsidiados e doentes mentais, não pôde esquivar-se.

Entretanto, a presença da conhecida missionária causava espécie.

O domingo era de imenso calor e Benedita ostentava compacto mantô de lã, apenas compreensível em tempo frio.

– Mania! – cochichava alguém, a pequena distância.
– De tanto lidar com malucos, a pobre espírita enlouqueceu… – dizia elegante senhora à companheira de poltrona, em tom confidencial.
– Isso é pura vaidade – falou outra -, ela quer parecer diferente.
– Caso de obsessão! – certa amiga lembrou em voz baixa.

Benedita, porém, opinava nos temas propostos, cheia de compreensão e de amor.

Em meio aos trabalhos, contudo, por notar agitações na assembléia, a presidente alegou que Benedita suava por todos os poros, e, em razão disso, rogou a ela tirasse o mantô por gentileza.

Benedita Fernandes, embora constrangida, obedeceu com humildade e só aí as damas presentes puderam ver que a mulher admirável, que sustentava em Araçatuba dezenas de enfermos, com o suor do próprio rosto, envergava singelo vestido de chitão com remendos enormes.

Chico Xavier (médium)
Hilário Silva (espírito)   Livro: Idéias e Ilustrações

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A DIVINA VISÃO

Muitos anos orara certa devota, implorando uma visão do Senhor.

Mortificava-se. Aflitivas penitências alquebraram-lhe o corpo e a alma. Exercitava não somente rigorosos jejuns. Confiava-se a difícil adestramento espiritual e entesourara no íntimo preciosas virtudes cristãs. Em verdade, a adoração impelira-a ao afastamento do mundo. Vivia segregada, quase sozinha. Mas, a humildade pura lhe constituía cristalina fonte de piedade. A oração convertera-se-lhe na vida em luz acesa. Renunciara às posses humanas. Mal se alimentava. Da janela ampla de seu alto aposento, convertido em genuflexório, fitava a amplidão azul, entre preces e evocações. Muitas vezes notava que largo rumor de vozes vinha de baixo, da via pública. Não se detinha, porém, nas tricas dos homens. Aprazia-lhe cultivar a fé sem mácula, faminta de integração com o Divino Amor.

Em muitas ocasiões, olhos lavados em lágrimas, inquiria, súplice, ao Alto:

– Mestre, quando virás?

Findo o colóquio sublime, voltava aos afazeres domésticos. Sabia consagrar-se ao bem das pessoas que lhe eram queridas. Carinhosamente distribuía a água e o pão à mesa. Em seguida, entregava-se a edificante leitura de páginas seráficas. Mentalizava o exemplo dos santos e pedia-lhes força para conduzir a própria alma ao Divino Amigo.

Milhares de dias alongaram-lhe a expectação.

Rugas enormes marcavam-lhe, agora, o rosto. A cabeleira, dantes basta e negra, começava a encanecer.

De olhos pousados no firmamento, meditava sempre, aguardando a Visita Celestial.

Certa manhã ensolarada, sopitando a emoção, viu que um ponto luminoso se formara no Espaço, crescendo… crescendo… até que se transformou na excelsa figura do Benfeitor Eterno.

O Inesquecível Amado como que lhe vinha ao encontro.

Que preciosa mercê lhe faria o Salvador? Arrebatá-la-ia ao paraíso? Enriquecê-la-ia com o milagre de santas revelações?

Extática, balbuciando comovedora súplica, reparou, no entanto, que o Mestre passou junto dela, como se lhe não percebesse a presença. Entre o desapontamento e a admiração, viu que Jesus parara mais adiante, na intimidade com os pedestres distraídos.

Incontinente, contendo a custo o coração no peito, desceu até à rua e, deslumbrada, abeirou-se dele e rogou, genuflexa:

– Senhor, digna-te receber-me por escrava fiel!… Mostra-me a tua vontade! Manda e obedecerei!…

O Embaixador Divino afagou-lhe os cabelos salpicados de neve e respondeu:
– Ajuda-me aqui e agora!… Passará, dentro em pouco, pobre menino recém-nascido. Não tem pai que o ame na Terra e nem lar que o reconforte. Na aparência, é um rebento infeliz de apagada mulher. Entretanto, é valioso trabalhador do Reino de Deus, cujo futuro nos cabe prevenir. Ajudemo-lo, bem como a tantos outros irmãos necessitados, aos quais devemos amparar com o nosso amor e dedicação.

Logo após, por mais se esforçasse, ela nada mais viu.
O Mestre como que se fundira na neblina esvoaçante…
De alma renovada, porém, aguardou o momento de servir. E, quando a infortunada mãe apareceu, sobraçando um anjinho enfermo, a serva do Cristo socorreu-a, de pronto, com alimentação adequada e roupa agasalhante.

Desde então, a devota transformada não mais esperou por Jesus, imóvel e zelosa, na janela do seu alto aposento. Depois de prece curta, descia para o trabalho à multidão desconhecida, na execução de tarefas aparentemente sem importância, fosse para lavar a ferida de um transeunte, para socorrer uma criancinha doente, ou para levar uma palavra de ânimo ou consolo.

E assim procedendo, radiante, tornou a ver, muita vezes, o Senhor que lhe sorria reconhecido…

Irmão X ( espírito )
Chico Xavier ( médium )

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O DEVOTO DESILUDIDO

O fato parece anedota, mas um amigo nos contou a pequena história que passamos para frente, assegurando que o relato se baseia na mais viva realidade.

Hemetério Rezende era um tipo de crente esquisito, fixado à idéia de paraíso.  Admitia piamente que a prece dispensava as boas obras, e que a oração ainda era o melhor meio de se forrar a qualquer esforço.

“Descansar, descansar!…”  Na cabeça dele, isso era um refrão mental incessante.  O cumprimento de mínimo dever lhe surgia à vista por atividade sacrificial e, nas poucas obrigações que exercia, acusava-se por penitente desventurado, a lamentar-se por bagatelas.  Por isso mesmo, fantasiava o “doce fazer nada” para depois da morte do corpo físico.  O reino celeste, a seu ver, constituir-se-ia de espetáculos fascinantes de permeio com manjares deliciosos…  Fontes de leite e mel, frutos e flores, a se revelarem por milagres constantes, enxameariam aqui e ali, no éden dos justos…

Nessa expectativa, Rezende largou o corpo em idade provecta, a prelibar prazeres e mais prazeres.

Com efeito, espírito desencarnado, logo após o grande transe foi atraído, de imediato, para uma colônia de criaturas desocupadas e gozadoras que lhe eram afins, e aí encontrou o padrão de vida com que sonhara: preguiça louvaminheira, a coroar-se de festas sem sentido e a empanturrar-se de pratos feitos.

Nada a construir, ninguém a auxiliar…

As semanas se sobrepunham às semanas, quando, Rezende, que se supunha no céu, passou a sentir-se castigado por terrível desencanto.  Suspirava por renovar-se e concluía que para isso lhe seria indispensável trabalhar…

Tomado de tédio e desilusão, não achava em si mesmo senão o anseio de mudança…

À face disso, esperou e esperou, e, quando se viu à frente de um dos comandantes do estranho burgo espiritual, arriscou, súplice:

– Meu amigo, meu amigo!…  Quero agir, fazer algo, melhorar-me, esquecer-me!… Peço transformação, transformação!…

– Para onde desejas ir? – indagou o interpelado, um tanto sarcástico.

– Aspiro a servir, em favor de alguém…  Nada encontro aqui para ser útil…  Por piedade, deixe-me seguir para o inferno, onde espero movimentar-me e ser diferente…

Foi então que o enigmático chefe sorriu e falou, claro:

– Hemetério, você pede para descer ao inferno, mas escute, meu caro!…  Sem responsabilidade, sem disciplina, sem trabalho, sem qualquer necessidade de praticar a abnegação, como vive agora, onde pensa você que já está? 

Chico Xavier (médium)
Irmão X (espírito) Livro: Estante da Vida

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 O ANJO E O MALFEITOR

O Mensageiro do Céu volveu do Alto a sombrio vale do mundo, em apoio de
centenas de criaturas mergulhadas na enfermidade e no crime, na, miséria e na ignorância, e, necessitando de concurso alheio para estender socorro urgente, começou por recorrer a publicação de apelos do Próprio Evangelho, induzindo corações, em nome do Cristo, à compaixão e a caridade.

Entretanto, porque tardasse qualquer resultado concreto, de vez que todos os habitantes do vale se comoviam com as legendas, mas não se encorajavam à menor manifestação de amparo ao próximo, o Enviado Celestial, convicto de que fora recomendado pelo Senhor a servir e não a questionar, julgou mais acertado assumir a forma de um homem e solicitar sem delongas o apoio de alguém que lhe pudesse prestar auxílio.

Materializado a preceito, procurou pela colaboração dos homens considerados mais responsáveis. Humilde e resoluto, repetia sempre o mesmo convite à prática evangélica, registrando respostas que o surpreendiam pela diferença.

O VIRTUOSO – Não posso manchar meu nome em contacto com os viciosos e transviados.

O SÁBIO – Cada qual está na colheita daquilo que semeou. Falta-me tempo para ajudar vagabundos, voluntariamente distanciados da própria restauração.

O PRUDENTE – Não posso arriscar minha posição dificilmente conquistada, na intimidade de pessoas que me prejudicariam a estima publica.

O FILANTROPO – Dou o dinheiro que seja necessário, mas de modo algum me animaria a lavar feridas de quem quer que seja.

O PREGADOR – Que diriam de mim se me vissem na companhia de criminosos?

O FILÓSOFO – Nunca desceria a semelhante infantilidade… Aspiro a alcançar as mais altas revelações do Universo. Devo estudar infinitamente… Além disso, estou cansado de saber que, se não houvesse sofrimento, ninguém se livraria do mal…

O PESQUISADOR DA VERDADE – Não sou a pessoa indicada. Caridade é capa de muitas dobras, que tanto acolhe o altruísmo quanto a fraude. Não me incomode… Procuro tão somente as realidades essenciais.

Desencantado, o Mensageiro bateu à porta de conhecido malfeitor, aliás, a pessoa menos categorizada para a tarefa, e reformulou a solicitação. O convidado, embora os desajustes íntimos, considerou, de imediato, a honra que o Senhor lhe fazia, propiciando-lhe o ensejo de operar no levantamento do bem geral, e meditou, agradecido, na Infinita Bondade que o arrancava da condenação para o favor do serviço. Não vacilou. Seguiu aquele desconhecido de maneiras fraternais que lhe pedia cooperação e entregou-se decididamente ao trabalho. Em pouco tempo, conheceu a fundo o martírio das mães desamparadas, entre a doença e a penúria, carregando órfãos de pais vivos; o pranto das viúvas relegadas à solidão; as aflições dos enfermos que esperavam a morte nas arcas de ninguém; a tragédia das crianças abandonadas; o suplício dos caluniados sem defesa; os problemas terríveis dos obsidiados sem assistência; a mágoa das vítimas dos preconceitos levados ao exagero pelo orgulho social; a angústia dos sofredores caídos em desespero pela ausência de fé…

Modificado nos mais profundos sentimentos, o ex-malfeitor consagrou-se ao alívio e à felicidade dos outros, e, percebendo necessidades e provações que não conhecia, procurou instruir-se e aperfeiçoar-se. Com quarenta anos de abnegação, adquiriu as qualidades básicas do Virtuoso, os recursos primordiais do Sábio, o equilíbrio do Prudente, as facilidades econômicas do Filantropo, a competência do Pregador, a acuidade mental do Filósofo e os altos pensamentos do Pesquisador da Verdade…

Quando largou o corpo físico, pela desencarnação – Espírito lucificado no cadinho da própria regeneração, ao calor do devotamento ao próximo -, entrou vitoriosamente no Céu, para a ascensão a outros Céus… 

Um dia, chegaram ao limiar da Esfera Superior o Virtuoso, o Sábio, o
Prudente, o Filantropo, o Pregador, o Filósofo e o Pesquisador da Verdade…

Examinados na Justiça Divina, foram considerados dignos perante as Leis do Senhor; entretanto, para o mérito de seguirem adiante, luzes acima, faltava-lhes trabalhar na seara do amor aos semelhantes… Enquanto na Terra não haviam desentranhado os tesouros que Deus lhes havia conferido em benefício dos outros Cabia-lhes, assim, o dever de regressar às lides da reencarnação, mas, porque haviam abraçado conduta respeitável no mundo, o Virtuoso receberia, na existência vindoura, mais veneração, o Sábio mais apreço, o Prudente mais serenidade, o Filantropo mais dinheiro, o Pregador mais inspiração, o Filósofo mais discernimento e o Pesquisador da Verdade mais luz… 

Observando, porém, que o malfeitor, sobejamente conhecido deles todos, vestia alva túnica resplendente, funcionando entre os agentes da Divina Justiça, começaram a discutir entre si, incapazes de reconhecer que na obra do amor qualquer filho de Deus encontra os instrumentos e caminhos da própria renovação. Desalentados, passaram a reclamar… Em nome dos companheiros, o Virtuoso aproximou-se do orientador maior que lhes revisava os interesses no Plano Espiritual e indagou:

-Venerável Juiz, por que motivo um malfeitor atravessou antes de nós, as fronteiras do Céu?!…

O magistrado, porém, abençoou-lhe a inquietação com um sorriso e informou, simplesmente.

– Serviu.

Chico Xavier ( médium )
Irmão X ( espírito )    Livro: Estante da Vida

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PEDAÇO DE ESTRELA

Quando ainda era criança, fui visitado por um anjo durante o sono.

— Vem! – Disse-me ele. – Confiante, entreguei-me em seus braços!

Em poucos instantes fomos transportados para o Firmamento!

Contemplei de perto a beleza das Estrelas! Observei que entre elas havia um espaço vazio, parecia faltar uma delas, então perguntei:

— Para onde foi a Estrela que estava aqui?

— Foi para a Terra. – Respondeu o anjo.

— Como eu não a vi por lá?

— Ela se dividiu em pedacinhos para cumprir a missão que Deus lhe confiou.

— Quem é ela? – Perguntei.

— Ela é auxiliar direta de Deus, materializando a vida na Terra!

É forte como um gigante e frágil como uma flor! No seu coração Deus colocou a força do Universo e o segredo da felicidade!

Pelas suas entranhas a vida se renova! Pelo seu amor os mundos se transformam! Progenitora das gerações, se tornou o portal da vida, acolhendo carinhosamente em seu ventre os brutos e os santos, os sábios e os ignorantes, os justos e os injustos…

Enquanto o anjo falava, fui tomado por uma sensação de queda e acordei nos braços de minha mãe!

Então compreendi! Ali mesmo, apertando-me contra o peito, estava um pedaço enorme daquela Estrela!

Nelson Moraes Do Livro: Pedaço de Estrela

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O GOLPE DE VENTO

Ali, na solidão do quarto de estudo, Joanino Garcia descerrara a grande janela, à procura de ar fresco.

Repousara minutos breves.

Agora, porém, acreditava ter chegado ao fim.

Julgara haver lido numa obra de clínica médica a própria sentença de morte.

Facilmente sugestionável, há muito vinha dando imenso trabalho ao médico.

E, não obstante espírita convicto, deixava-se levar por impressões.

Em menos de dois anos, sentira-se vitimado por sintomas diversos.

A princípio, dominado por bronquite rebelde, compulsara um livro sobre tuberculose e supusera-se viveiro dos bacilos de Koch.

Tempo e dinheiro foram gastos em exames e chapas.

Entretanto, mal não acabara de se convencer do contrário, quando, numa noite, ao sentir-se trêmulo, sob o efeito de determinada droga, começou a estudar a doença de Parkinson e foi nova luta para que lhe desanuviasse o crânio.

Joanino mostrara-se contente, por alguns dias; entretanto, uma intoxicação alterou-lhe a pele e ei-lo crente de que fora atacado pela púrpura hemorrágica, obrigando o médico e a família a difícil trabalho de exoneração mental.

Naquele instante, contudo, via-se derrotado.

Experimentando muita dor, buscara o consultório na antevéspera e o clínico amigo descobrira uma artrite reumatóide, recomendando cuidados especiais.

No grande sofá, depois de leve refeição, ao sentir pontadas relampagueantes no ombro esquerdo, tomou o livro de anotações médicas e abriu no capítulo alusivo à moléstia que lhe fora diagnosticada.

Antes de iniciar a leitura, levantou-se com dificuldade, para um gole d’água, tentando aliviar as agulhadas nervosas, e não viu que o vento virara as folhas do volume.

Voltando, sobressaltado leu nas primeiras linhas  da página:

– “A moléstia assume a forma de dor pungente e agonizante.  Geralmente a crise perdura por segundos e termina com a morte.  Sofrimento agudo e invencível.  A dor começa no ombro esquerdo a refletir-se na superfície flexora do braço esquerdo até às pontas dos dedos médios”.

Joanino rendeu-se.

Quis gritar, pedir socorro, mas “a dor agonizante”, ali referida, crescia assustadora.

Pensou na mulher e nos quatro filhinhos.

Afligia-se como que sufocado.

Não podendo resistir, por mais tempo, aos próprios pensamentos concentrados na idéia da desencarnação, rendeu-se à morte.

Despertando, porém, fora do corpo de carne, afogado em preocupações, ao pé dos familiares em chorosa gritaria, viu o benfeitor espiritual que velava habitualmente por ele.

O amigo abraçou-o emocionado, e falou:

– É lamentável que você tenha vindo antes do tempo…

– Como assim? – respondeu Garcia, arrasado. – Li os sintomas derradeiros de minha enfermidade.

– Houve engano – explicou o instrutor – os apontamentos do livro reportavam-se à angina de peito e não à artrite reumatóide como a sua leitura fez supor.  A corrente de ar virou a página do livro.  Você possuía, em verdade, um processo anginoso, mas com catorze anos de sobrevida…  Entretanto, com o peso de sua tensão mental…

Só aí Joanino veio a saber que morrera, de modo prematuro, em razão da sensibilidade excessiva, ante a leitura alterada por ligeiro golpe de vento.

Hilário Silva (espírito)
Chico Xavier (médium)  Livro: Idéias e Ilustrações

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LIÇÃO ESPÍRITA

Internara a filhinha num Lar de crianças sem pais.

Vendendo ilusões, fora antes vendida a um bordel, quando ludibriada nos sentimentos de menina-moça.

Comprometera-se não visitar a filha, a fim de fazê-la ignorar a origem. Desejava-a feliz, fosse educada, que se lhe desse uma profissão digna e despediu-se, emocionada, de alma amarfanhada.

Quatro anos depois, sucumbindo ao peso de cruel enfermidade, buscou rever a filha. Apresentou-se como se lhe fora tia. A pequena, porém, chamou-a “mamãe”.

Sem ocultar as lágrimas, reiterou a condição de tia, cuja irmã desencarnara em situação dolorosa…

Sentia-se desencarnar e informara ao diligente benfeitor da filha que eram poucos os seus dias na Terra.

Suplicou desvelado carinho para a menina.

Recusou-se receber qualquer assistência e partiu…

Um ano após, volveu, renovada.

– Gostaria que o senhor me ouvisse – solicitou.

E narrou que a enfermidade psíquica de uma amiga de infortúnio levara-as a um Centro Espírita, que funcionava no bairro de angústias, onde viviam.

Encontrara ali amparo, assistência moral, orientação.

A pesado sacrifício, começou a frequentar a Casa. À medida que recobrava a saúde, oportunamente, deparou-se naquele recinto com o homem que a infelicitara.

Dominada pelo ódio, que lhe irrompeu intempestivo, acusou-o diante de todos, apontando-o como o destroçador da sua vida…

– É verdade! – Retrucara o acusado – Naquele tempo, eu era igualmente um enfermo… do espírito.

E rogou-lhe perdão.

Ela se comoveu. Afinal, sob o ódio havia o amor magoado.

Tornaram-se amigos.

Há pouco tempo ele lhe prometera matrimônio.

Dissera que a amava.

Aceitara-o.

Ele retirou-a do “comércio carnal” em que vivia e alugara um apartamento onde a hospedou com dignidade.

Respeitavam-se.

Casaram-se logo depois.

– Seria possível, agora, conduzir a filha para o lar? – Indagou, ansiosa.

– Sem dúvida – concordou o amigo.

Prometeu, então, retornar depois, em companhia do esposo.

Ao fim da semana, jovial, fazia-se acompanhar do cônjuge.

Comprovaram a situação nova: moral e legal.

Quando a filhinha foi abraçá-la e o dirigente do Lar explicou que se tratava da sua genitora, respondeu a menina:

– Eu sabia! Orava a Jesus para que Ele me trouxesse minha mamãe de volta.

Reabilitados, agora abrem as mãos da caridade aos que padecem, laborando no santuário onde receberam a medicação espírita para a paz.

A lição espírita promove o homem e reabilita-o.

Só é legítima a crença que soergue e enobrece o crente.

O Espiritismo, por tal razão, é o Consolador, pois que, enxugando as lágrimas, liberta o que chora, levantando-o e dignificando-o, a fim de que não volte à furna do desespero donde se evadiu.

Divaldo P. Franco (médium)
Ignotus (espírito) Livro: Espelho D’álma

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CONSCIÊNCIAS

Ao rei Tajuan, do Iémene, numa audiência rotineira, foram trazidos cinco malfeitores que lhe haviam requerido proteção e misericórdia.

Seguido de guardas vigilantes, aproximou-se o primeiro e rogou em lágrimas, após beijar o escabelo em que o soberano punha os pés:

– Perdão, ó rei! Juro pelo Altíssimo que não matei com intenção… Comecei a discutir com o ladrão de meus cavalos e, em certo momento, senti a cabeça turva… Rolei no chão sobre o meu contendor e, quando me dominei, o gatuno estava morto! Piedade! Piedade para mim, que não tive força de governar o coração!… Só agora, na prisão, ouvi a palavra de um homem que repetia as lições do Profeta… Só agora, compreendo que errei!

..O soberano chamou o vizir que o acompanha e determinou que entregassem ao réu aos cuidados de um médico, a fim que fosse julgado com indulgência, depois do tratamento preciso.

Adiantou-se o segundo e clamou, submisso:

– Glorificado seja Alá, em vossa presença, ó rei generoso! Compadecei-vos de mim, que sou ignorante e mau! Jamais pude ler uma só frase dos Sagrados Preceitos e somente agora, depois de embriagar-me e espancar meu pai, inconscientemente, é que vim a saber que o homem não deve crescer como as bestas do campo!…

O rei fitou-o, compassivo, e determinou que o denunciado fosse prontamente admitido à escola.

Veio o terceiro e implorou:

– Clemência para mim, ó representante de Alá… Sou analfabeto. Desde a infância, trabalho no mercado para sustentar meus avós paralíticos… Observando que vários negociantes obtinham maiores lucros, roubando nos pesos, não hesitei segui-lhes os maus exemplos. Juro pela memória de meus pais que não sabia o que andava fazendo…

Tajuan, complacente, recomendou medidas para que o desventurado permanecesse, largo tempo, sob as lições de um guia espiritual.

O quarto réu abeirou-se do estrado real e suplicou:

– Perdão, perdão ó rei justo! Assaltei a casa do avarento Aquibar, porque não mais suportava a penúria… Tenho mulher e nove filhos famintos e enfermos!… Sou um cão batido pelo sofrimento… Cresci na areia, sem ninguém que me quisesse… Sei que Alá existe, porque é impossível haja sol e caia chuva sem um pai que nos olhe do céu, mas nunca aprendi a soletrar o nome do Eterno!…

Extremamente comovido, Tajuan solicitou ao ministro expedisse socorro urgente à choupana do infeliz e ordenou que um mestre o instruísse nos deveres do homem de bem, antes que a falta subisse a mais ampla consideração dos juizes.

Por último, apresentou-se um homem de porte orgulhoso, que fez a reverência de estilo e solicitou:

– Sapientíssimo Rei, peço a vossa benevolência para mim, que tive a desventura de furtar um adereço de brilhantes, na festa de Joanan ben Kisma, judeu rico e preguiçoso, conhecido inimigo de nossa nação… Conheço as leis que nos regem e acato os ensinamentos do Profeta, mas não pude resistir à tentação de levar comigo uma jóia do usurário que as possui aos montões…

Benevolência, ó Rei Tajuan! Rogo a vossa benevolência!…

O soberano, porém, franziu a testa, contrariado e, com assombro de todos os circunstantes, determinou que o árabe culto recebesse, atado a um poste, trinta e seis chicotadas, ali mesmo, diante de seus olhos, para, em seguida, ser trancafiado no cárcere por dois anos.

– Pela glória de Alá, ó rei sábio! – exclamou, confundido, o vizir a cuja autoridade se rogara auxílio para o distinto acusado – como interpretar a vossa munificência? Destes medicação a um criminoso, escola a um ébrio e socorro material e moral a dois ladrões, e indicais pena assim tão cruel a um filho de nosso povo que venera o Profeta, unicamente pelo fato de haver desaparecido uma jóia dos tesouros de um agiota desprezível?

– Por isso mesmo, ó vizir, por isso mesmo! – falou Tajuan, desencantado – por saber tanto, é mais responsável… Os quatro primeiros eram ignorantes e todos os ignorantes são infelizes, mas o quinto culpado é um homem finamente instruído e sabe perfeitamente o que deve fazer!

*Há quem afirme que nós, os que nos fizemos espíritas, encarnados ou desencarnados, sofremos mais que os nossos semelhantes, carregando aparentemente cruzes mais pesadas; no entanto, nós os espíritas, conhecemos as leis que nos governam os destinos e, por essa razão, mais responsáveis somos pelos nossos atos.

Chico Xavier (médium)
Irmão X (espírito) Livro: Relatos da Vida

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