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CONTOS ESPÍRITAS

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A IDEIA DE DEUS

Num edifício de sete andares, havia nascido e vivido moradores, cujos olhos jamais tinham contemplado a luz do sol, a não ser através das vidraças diversamente coloridas de cada pavimento.

Os moradores do primeiro pavimento, encerrados nos limites do seu pequeno mundo, diziam que a luz do sol era de cor vermelha, porque vermelhos eram os vidros, através dos quais, se habituaram a vê-la.

Os do segundo pavimento diziam, por sua vez, que era de cor alaranjada, porque alaranjados eram os vidros pelos quais ela, diariamente, se filtrava.
Os do terceiro diziam, pela mesma razão, que era de cor amarela.

Os do quarto, diziam que era verde; os do quinto, azul; os do sexto, anil; e os do sétimo e último, diziam que era violeta.

Certo dia, porém, um morador, mais inteligente, resolveu sair do edifício e, surpreendido com a luz do sol, que lá no alto, se decompunha na policromia do arco-íris, compreendeu logo que cada morador havia apreendido somente uma parcela da verdade.

Tudo se passava, exatamente, como se cada um deles, em seu próprio pavimento, tivesse visto apenas uma, dentre as sete faixas luminosas do espectro solar.

A luz do sol era, realmente, da cor sob a qual cada um tinha visto, mas era, também, muito mais do que isso: era a síntese das sete cores.

Assim como cada morador via o sol, cada criatura vê DEUS.

Situado em diferentes faixas de evolução, cada qual O verá sob um aspecto diferente, segundo a diversa coloração do seu entendimento.

Chegará, no entanto, um dia em que a criatura transcenderá os augustos limites do seu mundo e compreenderá DEUS, em sua essência, na síntese de seus atributos!

Rubens Romanelli (Livro: Mensagens dos Mestres)

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DOIS TIPOS DE CORAGEM

Vivia em Cuzco, no tempo do célebre Inca Viracocha (na segunda metade do século XIV), um valente general, de nome Sinchi Maqui, que tinha prestado valiosos serviços ao Inca Yahuar Huacar, e era muito estimado por este e pelo sucessor, por ser muito corajoso e intrépido. O seu nome brilhava na lista dos defensores da Pátria Peruana, nas expedições contra as províncias de Chinchafuya e Atahaualha, e gozava de grande estima e confiança do imperador Viracocha.

Tinha um filho, de nome Hailhi, e desejava que este se tornasse igualmente célebre no desempenho das atividades militares. O jovem, porém, não mostrava grande amor aos exercícios próprios dos guerreiros, preferindo ocupar-se com os estudos científicos, Dedicava seu tempo à leitura dos nós dados em cordões, distribuídos em suspensão em grandes salões do palácio imperial; pois, no Império dos Incas não se conhecia a arte de escrever sobre papel ou semelhante material, mas todos os registros de fatos históricos e as notas da vida prática eram feitos por meio desses nós, cuja leitura e manipulação era dada aos poucos homens, encarregados de tais conhecimentos.

Ao principio agradava ao pai a aplicação do filho nos estudos, porque julgava que, depois de tornar-se “Amauta”, isto é, sábio, dedicar-se-ia com entusiasmo aos exercícios das armas, manejo da flecha e das lutas corporais. Quando, porém, uma dia Hailhi explicou claramente ao pai que não queria ser guerreiro, e sim continuar seus estudos, e tornar-se útil à Pátria com o seu saber, Sinchi Maqui, já velho, indignou-se e, agarrando uma lança, atirou-a contra o filho, exclamando: “Morre, filho desobediente e covarde!”.

Como, porém, a velhice tinha enfraquecido o braço do guerreiro e seus olhos, a lança não acertou o coração do jovem, ferindo-o apenas superficialmente no peito. Hailhi, sem assustar-se, tirou a lança da ferida e, sorrindo, entregou-a ao pai, colocando-se perto dele e oferecendo seu peito para novo golpe.

Este rasgo de coragem e nobre atitude do filho, produziu no velho guerreiro uma profunda impressão. Envergonhado, quis suicidar-se com a mesma lança; porém, Hailhi impediu-o nesse intuito, dizendo-lhe: “Meu pai, já viste que não sou covarde; tem, portanto, também tu a coragem de suportar a tua vida, pois, não há motivo para desesperares. Não é só na guerra que se manifesta a coragem; a vida apresenta muitas ocasiões em que ela é exigida”.

Desde aquele tempo, Sinchi Maqui nunca mais contrariou a vocação do filho, e alcançou ainda os anos em que Hailhi se tornou célebre na Corte Imperial por sua grande sabedoria.

Antônio F. Rodrigues (médium)
F. V. Lorenz (espírito) Livro: Mensagens dos Mestres

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POR 5 DIAS

Mais De seis lustros passaram.

Francisco Teodoro, o industrial suicida, experimentara pavorosos suplícios nas trevas…

Defrontado por crise financeira esmagadora, havia aniquilado a existência.

Tivera vida próspera.  À custa de ingente esforço, construíra uma fábrica.  Importando fios, conseguira tecer casimiras notáveis.  E o trabalho se lhe desdobrava, promissor.  Operários e máquinas eficientes, armazéns e lucros firmes.

Surgira, porém, a retração dos negócios.

Humilhavam-no cobranças e advertências, a lhe invadirem a casa.  Frases vexatórias espancavam-lhe os ouvidos.

– Coronel Francisco, trago-lhe as promissórias vencidas.

– Sr. Francisco, nossa firma não pode esperar.

O capitão de serviço pedia mais tempo; apresentava desculpas; falava de novas esperanças e comentava as dificuldades de todos.

Meses passaram pesadamente.

Cartas vinagrosas chegavam-lhe à caixa postal.

Devia a credores diversos o montante de oitocentos contos de réis.  A produção, abundante, descansava no depósito, sem compradores.

Procurava consolo na fé religiosa.

Por toda a parte, lia e ouvia referências à Divina Bondade.  Deus não desampara as criaturas – pensava.  Ainda assim, tentava a oração, sem abandonar a tensão.

E porque alguém o ameaçava de escândalos na imprensa, com protestos públicos, em que seria indiciado por negociante desonesto, escreveu pequena carta, anunciando-se insolvável, e disparou um tiro no crânio.

Com imenso pesar, descobriu que a vida continuava, carregando, em zonas sombrias de purgação, a cabeça em frangalhos.

Palavra alguma na Terra conseguiria descrever-lhe o martírio.  Sentia-se um louco encarcerado na gaiola do sofrimento.  Depois de trinta anos, pôde recuperar-se, internando-se em casa de reajuste, reavendo afeiçoes e reconhecendo amigos…

E agora que retornava à cidade que lhe fora ribalta ao desespero, notava, surpreendido, o progresso enorme da fábrica que lhe saíra das mãos.

Embora invisível aos olhos físicos dos velhos companheiros de luta, abraçou, chorando de alegria, os filhos e os netos reunidos no trabalho vitorioso.

E após reconhecer o seu próprio retrato, reverenciado pelos descendentes no grande escritório, veio, a saber, que acontecimento importante sucedera cinco dias depois dos funerais em que a família lhe pranteara o gesto terrível.

À face da alteração na balança comercial do país, ante a grande guerra de 1914, o estoque de casimiras, que acumulara zelosamente, produziu importância que superou de muito a quatro mil contos de réis.

Mostrando melancólico sorriso, o visitante espiritual compreendeu, então, que a Bondade de Deus não falhara.

Ele apenas não soubera esperar…

Chico Xavier (médium)
Hilário Silva (espírito) Livro: Ideias e Ilustrações

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O JUIZ COMPASSIVO

O Homem rude, escravo da Natureza, através de laborioso atrito no bosque cerrado, fez fogo crepitante, e a lenha, a consumir-se, lamentou com amargura:

– Ai de mim! Quem me socorre? Quem me livrará do incêndio devastador?

Mal se calara o combustível, grande porção de ferro bruto foi trazida ao braseiro e o minério chorou, clamando:

– Ó Céus! O calor me consome! Desventurado que sou! Quem me arrancará de semelhante inferno?

Emudeceu o infeliz e, depois de alguns dias, o ferro, convertido em arado, sulcava a terra, que gemia, dilacerada:

– Quem se atreve a rasgar-me o seio de mãe? Dou quanto tenho à vida… Por que me despedaçam o coração? Piedade! Piedade!

O silêncio, todavia, tornou ao terreno. Decorridas algumas horas, o grão foi lançado às chagas da terra e, vendo-se tragado pelo solo, exclamou:

– Quem me atenta, assim, contra a fraqueza? Deus de bondade! Não me entregueis à sanha dos maus… Tenho medo, a escuridão me sufoca e o frio me impele à morte!

Entretanto, acabou submetido e, pouco tempo depois, ressurgiu na forma de arbusto frágil que, dia a dia, cresceu, floriu e frutificou.

Quando a espiga madura se orgulhava ao sol, veio a segadeira que a decepou sem comiseração. A espiga, triste reclamou, atormentada:

– Que será de mim? De onde procede o golpe que me abate?! Justiça! Justiça!

O debulhador, contudo, em movimentos rápidos, cortou-lhe a voz, e agora, em lugar dela, apareciam bagas robustas e anchas de si.

A breve trecho, estas foram precipitadas na canoura do moinho e, quando enorme pedra realizava o esmagamento, encheu-se o ar de brados comoventes:

– Socorro! Socorro! Salvem-nos! Salvem-nos! …

O serviço da velha mó impôs, sem demora, estranha inquietude, e onde existiam grãos preciosos apareceu lirial farinha, a qual, parecia, nada haveria de perturbar.

Veio, porém, o amassador, que, misturando-o a ingredientes diversos, com ela formou substanciosa massa.

A farinha chorava e lamentava-se dolorosamente e, ao ser conduzida ao forno, gritou, súplice:

– Que crime cometi para sofrer, assim, tamanha flagelação?

Pouco a pouco, o fortíssimo calor a emudeceu; findas algumas horas, era ela formoso pão na mesa do Homem.

O feliz comensal fez-se rodeado de várias presas, tais como a uva pisada no lagar, em forma de vinho, uma costela sanguinolenta de ovelha choupada ao amanhecer, ervilhas afogadas em molho excitante e alguns pequeninos cadáveres de peixe enlatado, e comeu, comeu… sem o menor pensamento de gratidão pelo repasto que tantos sacrifícios custara à Natureza.

Repetia-se, diariamente, a mesma cena, quando o Céu, compadecido e preocupado, enviou a Fé ao gastrônomo esquecido de si mesmo, e, com delicadeza, a virtude divina o convidou a trabalhar na sementeira do bem. Não seria razoável dar alguma coisa ao mundo que tudo lhe dava, auxiliando a Terra, de algum modo, no amparo às criaturas inferiores?

O Homem, no entanto, desferiu gargalhada escarninha e, menosprezando-a, refestelou-se em veludosa poltrona onde se pôs a roncar.

Reparou a Fé, sob forte assombro, que enquanto o ferro, o grão e o animal se achavam despertos, atendendo à finalidade que lhes competia nos círculos da Vida, o Homem, na vigília ou no sono, guardava as mesmas características de inconsciência quanto à própria destinação; em face de tanta dureza, retornou ela ao Paraíso, onde relacionou o que observara, rogando, então, ao Divino Poder fosse a Dor enviada ao Homem, com as atribuições de juiz compassivo e reto, a fim de despertá-lo.

E veio a Dor, e com ele ficou…

Emmanuel (espírito)
Chico Xavier (médium)

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PERGUNTA NO AR

Tempos depois do regresso de Jesus às Esferas Superiores, transformara-se Pedro, o apóstolo, em Jerusalém, no esteio firme da causa evangélica. Todos os dias, a faina difícil. Os necessitados de todas as procedências e, com os necessitados, os perseguidores, os adversários, os donos do sarcasmo, os campeões da galhofa e quantos compunham a multidão de obsessos e infelizes.

Simão, ora brando, ora enérgico, servia sempre.

A feição humana do amigo de Jesus era, porém, examinada sem qualquer compaixão, pelos críticos intransigentes.

Era Pedro fraco ou forte, vaidoso ou humilde, compreensivo ou intolerante?

Nesse clima de diz-que-diz, achava-se Eliaquim, filho de Josias, à procura de ervilhas, em pequeno mercado de verduras, quando viu à frente de Natan, fariseu letrado e rico da cidade, que passou a inquiri-lo de maneira direta:

– Então, é você agora um cliente daqueles que seguem o Messias?

– Sim – confirmou o interpelado.

– Vi-me doente de um dia para o outro, e, além de tudo, despojado de todos os meus bens pela ambição de parentes ingratos… Em terrível penúria, recorri a Simão, que me acolheu…

– Simão Pedro?

– Ele mesmo.

– E, porventura, você se sente tranquilo?

– Como não? Tenho hoje, com ele, um novo lar.

Natan pousou a destra no ombro do amigo e murmurou:

– Eliaquim, francamente não entendo a razão pela qual tantos compatriotas se deixam embair pelas manhas do pescador que se faz de santo. Tenho lido e ouvido algo, acerca do Profeta Nazareno, e não lhe regateio admiração. Mas… Pedro? Um brutamontes mascarado de mestre? Descansei por várias semanas na Galiléia, junto ao lago, em cujas bordas andou Jesus ensinando a nova doutrina… E, em torno de Simão, apenas recolhi apontamentos escabrosos. É um poço de prepotência e brutalidade, na forma de um homem. Contam-se dele coisas incríveis. Não se trata unicamente da negação em que se fez conhecido por traidor do próprio Jesus, a quem diz reverenciar. Dizem que foi sempre um modelo completo de crueldade e ingratidão. Mau filho, mau amigo. Alguns companheiros, que pude ouvir mais intimamente, declaram-no viciado e vaidoso. Alem de tudo isso, é notório em Jerusalém que ele não tem cultura alguma. Arrasa com as nossas tradições e ensinamentos, quando se expõe a falar em público. O homem abre a boca e o desastre aparece. Confunde Isaías com Jeremias, atribui a David palavras de Moisés. Israelitas distintos, recém-chegados da Grécia, que se puseram a escutá-lo, por respeito a Jesus, retiraram-se daqui escandalizados, segundo me disseram. Que fazem vocês com um ferrabrás dessa ordem? Acaso, não buscam saber se Pedro possui moral bastante e educação suficiente para tratar de encargos de que ousadamente se ocupa?

E porque Eliaquim emudecesse respeitoso, Natan insistiu:

– Diga-me, por favor, qual é a sua própria opinião?

O interpelado fitou o poderoso fariseu, demoradamente, e, depois de alguns instantes de expectação, respondeu sem alterar-se:

– Natan, é verdade que Simão é um homem rude, com muitos defeitos, apesar dos tesouros de amor e serviço que derrama do coração, mas… e você, meu amigo? Você que possui milhares de livros e estudou ao pé dos sábios de Jerusalém e de Alexandra, você que conhece Roma e Atenas, talvez palmo a palmo, você que é proprietário de fazendas e terras, casas e rebanhos, você que pode ser virtuoso, provavelmente porque não tem nenhuma de nossas necessidades materiais, que faz você, por amor a Deus, em auxílio ao próximo?

Natan fixou um sorriso amarelo, deu de ombros, lançou saliva na terra seca, ergueu a cabeça altiva e afastou-se, enquanto a pergunta ficou no ar.

Chico Xavier (médium)
Irmão X (espírito)

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O NOVO ALUNO

A aula já ia começar.

Dona Marta, a professora, preparava o seu material quando um menino franzino aproximou-se :

Bom dia! – cumprimentou-o a professora.

O menino manteve-se quieto, próximo à porta.

Dona Marta foi até ele e carinhosamente pegou-o pela mão apresentando-o à classe.

Este é o Carlos, nosso novo colega.

Carlos sentou-se, já mais à vontade, junto aos outros. Você quer perguntar alguma coisa? Disse a professora. Carlos respirou fundo e perguntou :

Sabe, professora, uma coisa que eu sempre quis saber é o seguinte: Por que eu tenho que aprender Matemática?

Para saber lidar com os números, fazer contas, conhecer figuras e tantas coisas mais, Carlos – explicou a professora.

E português, dona Marta? – quis saber Carlos.

É muito importante, Carlos uma pessoa escrever e falar bem a sua língua. E isso só é possível estudando-se Português.

E Geografia? continuou perguntando o menino.

Estudando Geografia, nós entendemos e conhecemos melhor o nosso espaço, o nosso planeta.

E História do Brasil, nós ficamos conhecendo melhor o nosso país, nossa gente, nosso passado…

Dona Marta, eu gostaria de fazer uma última pergunta: eu aprendo a falar, a contar, a conhecer o meu espaço e a história da minha gente nas ruas, sem casa, com fome, com frio e abandonado à minha própria sorte. Então, por que preciso estudar tudo isso?

Dona Marta, diante da classe em silêncio e bastante comovida, respondeu:

Para mudar, Carlos, e amanhã você poder contar uma HISTÓRIA diferente para seus filhos.

Armando Coelho de Carvalho Neto 

Livro: Contos e Apólogos

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CONSELHO TROCADO

No Rio de Janeiro, pequeno grupo de companheiros, no culto da assistência, entrou no presídio da Rua Frei Caneca.

Distribuição de lembranças e guloseimas.

Passando por determinada cela, D. Almira Barbosa ouve a voz de um encarcerado:

– Madame, quer arranjar-me um cigarro, por favor?

D. Almira volta-se para ele e começa a doutrinar.

Diz-se habituada aos serviços da saúde, fala dos prejuízos do fumo, comenta os imperativos da higiene, explana sobre as despesas trazidas pelo hábito de fumar e refere-se ao câncer do pulmão.

O preso observa a senhora, calmamente, dos pés à cabeça.

Quando termina, replica fleumático:

– Ora, madame, quem neste mundo, está sem algum costume censurável? A senhora é assistente de saúde, eu sou sapateiro. Com certeza, não fuma; entretanto, tem belos sapatos “Luís XV”, que lhe prejudicam a saúde. Já pensou nos perigos do salto alto? A senhora me desculpe, mas tanto erro eu com o cigarro reprovável quanto a senhora com o calçado inconveniente.

Waldo Vieira (médium)
Hilário Silva (espírito)  Livro: A Vida Escreve

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  SURPRESA

– Se alguém de outra vida pudesse materializar-se aos meus olhos – dizia Germano Parreira, em plena sessão no próprio lar -, decerto que a minha fé seria maior… Um ser de outro planeta que me obrigasse a pensar… Tanta gente se reporta a visões dessa natureza! Entretanto, semelhantes aparições não passam do cérebro doentio que as imagina. Quero algo de evidente e palpável. Creio estarmos no tempo da elucidação positiva.

Ouvindo-o, o Irmão Bernardo, mentor espiritual da reunião, que senhoreava as energias mediúnicas, aventou, sorridente:

– Você deseja, então, espetacular manifestação de Cima… Alguém que caia das nuvens à feição de um pára-quedista do espaço, em trajes fantasmagóricos, usando idioma incompreensível… um itinerante de outras constelações, cuja inopinada presença talvez ocasionasse enorme porção de mal, ao invés do bem que deveria trazer…

– Não, não é tanta a exigência – aduziu Parreira, desapontado. – Bastaria um ser materializado na forma humana, sem a descida visível do firmamento. Não será preciso que essa ou aquela entidade se converta em bólide para acentuar-me a convicção. Poderia surgir em nossa intimidade doméstica, sem qualquer passe de mágica, revelando-se no lar fechado em que antes não existia, a mostrar-se igual a nós outros, sendo, contudo, estranho ao nosso conhecimento…

– No entanto, sabe você que toda concessão envolve deveres justos. Um Espírito, para materializar-se na Terra, solicita meios e condições. Imaginemos que a iniciativa transformasse o hóspede suspirado numa criatura doente e débil, requisitando cuidado, até que pudesse exprimir-se com segurança. Incumbir-se-ia você de auxiliar o estrangeiro, acalentando-o com tolerância e bondade, até que venha a revelar-se de todo? Estaria disposto a sofrer-lhe as reclamações e as necessidades, até que se externe, robusto e forte?

– Oh! Isso mesmo. Perfeitamente!… – gritou Parreira, maravilhado. – Contemplar um Espírito assim, de modo insofismável, sem que eu lhe explique a existência no mecanismo oculto, consolidaria, sem dúvida, a riqueza de minha fé na imortalidade. Isso é tudo quanto peço, tudo, tudo…
Bernardo sorriu, filosoficamente, e acrescentou:

– Mas, Parreira, isso é acontecimento de todo dia e tal manifestação é recente sob o teto que nos acolhe. Ainda agora, na quinzena passada, você recebeu semelhante bênção, asilando no próprio lar um viajante de outras esferas, com a obrigação de ajudá-lo até que se enuncie sem vacilação de qualquer espécie… Esse gênio bondoso e amigo corporificou-se quase em seus braços. Bateu-lhe à porta, que você abriu generosamente. Entrou. Descansou. Permaneceu. E, ainda agora, ligado a você, espera por seu carinho e devotamento, a fim de atender plenamente à própria tarefa…

Como assim? Como assim? – irrompeu Germano, incrédulo. – Nada vi, nada sei, não pode ser…

Mas o Benfeitor Espiritual, controlando o médium, ergueu-se a passo firme e, demandando aposento próximo, de lá regressou, trazendo leve fardo.

Ante a surpresa dos circunstantes, Bernardo depositou-o com respeitosa ternura no regaço do amigo que ainda argumentava.

Parreira desenovelou curiosamente o pequenino volume e, entre aflito e espantado, encontrou, em plácido sono de recém-nato, o corpo miúdo e quente do próprio filho…

Chico Xavier (médium)
Irmão X (espírito) Fonte: Livro: Luz no Lar

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DEUS TE ABENÇOE

Logo após fundar o Lar “Anália Franco”, na cidade de S. Manuel, no Estado de São Paulo, viu-se D. Clélia Rocha em sérias dificuldades para mantê-lo.

Tentando angariar fundos de socorro, a abnegada senhora conduzia crianças, aqui e ali, em singelas atividades artísticas. Acordava almas. Comovia corações. E sustentava o laborioso período inicial da obra.

Desembarcando, certa noite, em pequena cidade, foi alvo de injusta manifestação antiespírita. Apupos. Gritaria. Condenações.

D. Clélia, com o auxílio de pessoas bondosas protege as crianças. Em meio à confusão, vê que um moço robusto se aproxima e, marcando-lhe a cabeça, atira-lhe uma pedra.

O golpe é violento. O sangue escorre. Mas a operosa servidora do bem procede como quem desconhece o agressor.

Medica-se depois.

Há espíritas devotados que surgem. D. Clélia demora-se por mais de uma semana, orando e servindo.

Acabava de atender a um doente em casa particular, quando entra uma senhora aflitíssima. É mãe. Tem o filho acamado com meningite e pede-lhe auxílio espiritual.

D. Clélia não vacila. Corre ao encontro do enfermo e, surpreendida, encontra nele o jovem que a ferira.

Febre alta. Inconsciência. A missionária desdobra-se em desvelo. Passes. Vigílias. Orações. Enfermagem carinhosa.

Ao fim de seis dias, o doente está salvo. Reconhece-a envergonhado e, quando a sós, beija-lhe respeitosamente as mãos e pergunta:

– A senhora me perdoa?

Ela, contudo, disse apenas, com brandura:

– Deus te abençoe, meu filho.

 Mas o exemplo não ficou sem fruto, porque o moço recuperado fez-se valoroso militante da Doutrina Espírita e, ainda hoje, onde se encontra é denodado batalhador do Evangelho.

Chico Xavier e Waldo Vieira (médiuns)
Hilário Silva (espírito
) Livro: O Espírito da Verdade

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REMÉDIO CONTRA TENTAÇÕES

Instado por um cristão novo de Jerusalém, que se fazia portador de preciosos títulos sociais, desejoso de ouvi-lo quanto a remédio eficaz contra as tentações, Simão Pedro, já velhinho, explicou sem rebuços:

– Certo homem de Gaza, que amava profundamente o Senhor e lhe observava, cauteloso, os mandamentos, após cumprir todos os deveres para com a família direta, viu-se, na meia-idade, plenamente liberto das obrigações mais imediatas e, porque suas aspirações mais altas fossem as de integração definitiva com o Altíssimo Pai, consagrou-se à contemplação dos mistérios divinos. Recolheu-se à oração e à meditação exclusivas. Extasiava-se diante das árvores e das fontes, perante o lar e o céu, louvando o Criador em cânticos interiores de reconhecimento. Tão maravilhosamente fiel se tornara ao Poder Celestial, que as Forças Divinas permitiram ao Espírito das Trevas aproximar-se dele, qual aconteceu, um dia, a Job, na segurança de sua casa em Hus.

O Rei do Mal acercou-se do crente perfeito e passou a batalhar com ele, tentando enegrecer-lhe o coração.

Após longos dias de conflito acerbo, o aspirante ao paraíso implorou ao Eterno, em soluços, lhe fornecesse recurso com que esquivar-se à tentação. Suplicou auxílio com fervor intenso, que o Misericordioso, através de um emissário, aconselhou-o a cultivar a terra.

O piedoso devoto atendeu à ordem, rigorosamente. Adquiriu extensos lotes de chão, preparou sementeiras e adubou-as; protegeu grelos tenros, dividiu as águas com inteligência; tomou a colaboração de regular exército de servidores e, vindo o Perverso Dominador, tão ocupada lhe encontrou a mente que foi obrigado a adiar a realização dos escuros propósitos.

O aliado de Deus agiu com tanto brilho que, em breve, a propriedade rural de que se fizera fiador converteu-se em abençoado centro de riqueza geral, a produzir, mecanicamente, para a fartura de todos.

Atendida a designação que procedia do Alto, o mordomo voltou a repousar e o Malvado se lhe abeirou dos passos, novamente.

Outro combate silencioso e o devoto suplicou a intervenção do Altíssimo.

Manifestando-se, por intermédio de devotado mensageiro, recomendou-lhe o Pai Bondoso fiar a lã dos rebanhos de ovinos que lhe povoavam as pastagens, e o beneficiado do conselho celeste observou fielmente a determinação.

Movimentou pessoal, selecionou carneiros, adquiriu teares e agulhas, fez-se credor de larga indústria do fio e, chegando o Maligno, notou-o tão ocupado que, sem guarida para provocações, se refugiou à distância, aguardando oportunidade.

O esforço do missionário, em poucos anos, imprimiu grande prosperidade ao serviço fabril, dispensando-o de maiores preocupações.

Reparando-o livre, regressou o Gênio Satânico e rearticulou-se a guerra íntima.

O aprendiz da fé recorreu à prece e outra vez implorou medidas providenciais ao Doador das Bênçãos.

O Poderoso, exprimindo-se por um anjo, induziu-o a moer grãos de trigo para benefício comum.

Voltou o favorecido ao trabalho e construiu, utilizando o concurso de muita gente, valiosos moinhos, suando, à frente de todos, na fabricação de farinhas alvas. Tornando o Dragão das Sombras e percebendo-lhe tão grande preocupação na atividade salvadora, retirou-se de novo, constrangido, espreitando ocasião mais oportuna.

Com o êxito amplo do servo leal, novo descanso abriu-se para ele e Satanás retornou, furioso, à batalha pela posse de sua vida.

O piedoso discípulo da salvação refugiou-se na confiança em Deus e o Todo-Amantíssimo, por outro enviado, aconselhou-o a erguer um pomar, em beneficio dos servidores que lhe seguiam a experiência.

Retornou o crente ao serviço ativo e tão entregue se achava às responsabilidades novas que o Perseguidor se viu na contingência de retroceder, na expectativa de ensejo adequado.

A fidelidade conferiu ao trabalhador operoso novas bênçãos de merecida prosperidade e o apaziguamento lhe felicitou o caminho.

Quando se fixava o crente, despreocupado e feliz, na beatitude, a fim de melhor agradecer as dádivas divinas, eis que ressurge o Maldito, convocando-o a retomar o duelo oculto.

O devoto, entretanto, compreendendo, por fim, as lições do Senhor, não se internou em novas rogativas. Envolveu-se no serviço útil ao mundo e aos semelhantes, até o fim de seus dias, quando partiu da Terra ostentando a coroa da eternidade.

O ouvinte sorriu, algo apreensivo, e o velho Pedro, calejado no sofrimento e no sacrifício, terminou, muito calmo:

– O único remédio seguro que conheço contra as tentações é o mergulho do pensamento e das mãos no trabalho que nos dignifique a vida para o Senhor.

E deu por finda a fraternal entrevista.

Chico Xavier (médium)
Irmão X (espírito)
Livro: Luz Acima

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QUINZE MINUTOS

I
Aristeu Leite era antigo lidador da Doutrina Espírita.
Assíduo cliente das sessões.
Dono de belas palestras. Edificava maravilhosamente os ouvintes.
Bom leitor.
Correspondente de instituições distintas.
Mantinha com veemência o culto do Evangelho no lar.
Extremamente caridoso. Visitava, cada fim de semana, vários núcleos beneficentes.

II
Naquela sexta-feira foi para casa, exultante.
Vivera um dia pleno de trabalho, coroado à noite pela oração ao pé dos amigos.
Entrou. Serviu-se de pequena porção de leite e, logo após, dirigiu-se ao quarto de dormir, onde a esposa e as filhinhas repousavam.
Preparou-se para o sono.
Sentia, porém, necessidade de meditação e voltou à sala adjacente.
Abriu pequeno volume e releu este trecho:
“O cristão é testado, a cada instante, em sua fé, pelos acontecimentos naturais do caminho. Por isso mesmo, a oração e a vigilância, recomendadas pelo Divino Mestre, constituem elementos indispensáveis para que estejamos serenos e valorosos nas menores ações da vida. Em razão disso, confie na Providência Maior, busque a benignidade e seja otimista. A caridade acima de tudo é infatigável amor para todos os infelizes. Por ela encontraremos a porta de nossa renovação espiritual. Acalme-se, pois, sejam quais forem as circunstancias e ajude a todos os seres da Criação, na certeza de que estará ajudando a si mesmo”.
Aristeu fechou o livro, confortado e refletiu:
“Estou satisfeito. Vivi bem o meu dia. Continuarei imperturbável. Auxiliarei a todos. Estou firme. Louvado seja Deus”.
Sem dúvida, sentia-se mais senhor de si.
Realizava-se. E, em vôo mais alto de superestimação do próprio valor, acreditou-se em elevado grau de ascensão íntima.
Nesse estado d’alma, proferiu breve oração e consultou o despertador. Uma e quinze da madrugada.
Apagou a luz e recolheu-se.

III
Penetrava de leve os domínios do sono, quando acordou sobreexcitado.
Alguém pressionava de manso a porta.
A esposa despertou trêmula.
Aterrada, não conseguiu sequer falar.
Aristeu, descontrolado, pôde apenas balbuciar:
– Psiu, psiu… Ladrão em casa.
Lembrou-se, num átimo, de antigo revólver carregado, em gaveta de seu exclusivo conhecimento.
Deslizou, à feição de gato.
E porque o rumor aumentasse, disparou dois tiros contra o suposto intruso.
Dispunha-se a continuar, quando voz carinhosa exclamou assustadiça:
– Meu filho! Meu filho! Sou eu, seu pai! Sou eu! Sou eu!…
Desfez-se o tremendo engano.
O genitor do chefe da casa viera de residência contígua. Possuindo as chaves domésticas, não vacilara, aflito, em vir rogar ao filho socorro médico para a esposa acamada, com febre alta.
Algazarra.
Vizinhos em cena.
Meninas em choro de grande grito.
Aristeu, envergonhado, abraçava o pai saído incólume, e explicava aos circunstantes o acontecido.
Enquanto revirava pequena farmácia familiar, procurando um calmante, deu uma olhadela ao relógio.
Uma e meia da manhã.
Entre os votos solenes e a ação intempestiva que praticara, havia somente o espaço de quinze minutos…

Chico Xavier (médium)
Hilário Silva (espírito) Livro: Idéias e Ilustrações

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DUAS ESPÉCIES DE CORAGEM

Vivia em Cuzco, no tempo do célebre Inca Viracocha (na segunda metade do século XIV), um valente general, de nome Sinchi Maqui, que tinha prestado valiosos serviços ao Inca Yahuar Huacar, e era muito estimado por este e pelo sucessor, por ser muito corajoso e intrépido. O seu nome brilhava na lista dos defensores da Pátria Peruana, nas expedições contra as províncias de Chinchafuya e Atahaualha, e gozava de grande estima e confiança do imperador Viracocha.

Tinha um filho, de nome Hailhi, e desejava que este se tornasse igualmente célebre no desempenho das atividades militares. O jovem, porém, não mostrava grande amor aos exercícios próprios dos guerreiros, preferindo ocupar-se com os estudos científicos, Dedicava seu tempo à leitura dos nós dados em cordões, distribuídos em suspensão em grandes salões do palácio imperial; pois, no Império dos Incas não se conhecia a arte de escrever sobre papel ou semelhante material, mas todos os registros de fatos históricos e as notas da vida prática eram feitos por meio desses nós, cuja leitura e manipulação era dada aos poucos homens, encarregados de tais conhecimentos.

Ao principio agradava ao pai a aplicação do filho nos estudos, porque julgava que, depois de tornar-se “Amauta”, isto é, sábio, dedicar-se-ia com entusiasmo aos exercícios das armas, manejo da flecha e das lutas corporais. Quando, porém, uma dia Hailhi explicou claramente ao pai que não queria ser guerreiro, e sim continuar seus estudos, e tornar-se útil à Pátria com o seu saber, Sinchi Maqui, já velho, indignou-se e, agarrando uma lança, atirou-a contra o filho, exclamando: “Morre, filho desobediente e covarde!”.

Como, porém, a velhice tinha enfraquecido o braço do guerreiro e seus olhos, a lança não acertou o coração do jovem, ferindo-o apenas superficialmente no peito. Hailhi, sem assustar-se, tirou a lança da ferida e, sorrindo, entregou-a ao pai, colocando-se perto dele e oferecendo seu peito para novo golpe.

Este rasgo de coragem e nobre atitude do filho, produziu no velho guerreiro uma profunda impressão. Envergonhado, quis suicidar-se com a mesma lança; porém, Hailhi impediu-o nesse intuito, dizendo-lhe: “Meu pai, já viste que não sou covarde; tem, portanto, também tu a coragem de suportar a tua vida, pois, não há motivo para desesperares. Não é só na guerra que se manifesta a coragem; a vida apresenta muitas ocasiões em que ela é exigida”.

Desde aquele tempo, Sinchi Maqui nunca mais contrariou a vocação do filho, e alcançou ainda os anos em que Hailhi se tornou célebre na Corte Imperial por sua grande sabedoria.

Antônio F. Rodrigues (médium)
F. V. Lorenz (espírito)
Livro: Mensagens dos Mestres

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NA HORA DA CRUZ

Quando o Mestre se afastou do Pretório, suportando o madeiro a que fora sentenciado pelo povo em desvario, pungentes reflexões lhe assomavam ao pensamento.

Que fizera senão o bem? Que desejara aos perseguidores senão a bênção da alegria e a visitação da luz?

Quando receberiam os homens o dom da fraternidade e da paz?

Devotara-se aos doentes com carinho, afeiçoara-se aos discípulos com fervor… Entretanto, sentia-se angustiadamente só.

Doíam-lhe os ombros dilacerados.

Porque fora libertado Barrabás, o rebelde, e condenado ele, que reverenciava a ordem e a disciplina?

Em derredor, judeus irritados ameaçavam-no erguendo os punhos, enquanto legionários semi-ébrios proferiam maldições.

A saliva dos perversos fustigava-lhe o rosto e, inclinando-o para o solo, a cruz enorme pesava…

“Ó, Pai! – refletia, avançando dificilmente – que fiz para receber semelhante flagelação?”

Anciãs humildes tentavam confortá-lo, mas, curvado qual se via, nem mesmo lhes divisava os semblantes.

“Porque a cruz? – continuava meditando, agoniado – porque lhe cabia tolerar o martírio reservado aos criminosos?”

Lembrou as crianças e as mulheres simples da Galiléia, que lhe compreendiam o olhar, recordando, saudoso, o grande lago, onde sentia a presença do Todo-Compassivo, na bondade da natureza…

Lágrimas quentes borbotaram-lhe dos olhos feridos, lágrimas que suas mãos não conseguiam enxugar.

Turvara-se-lhe a visão e, incapaz de mais seguro equilíbrio sobre o pedregulho do caminho estreito, tropeçou e caiu de joelhos.

Guardas rudes vergastaram-lhe a face com mais violência.

Alguns deles, porém, acreditando-o sob incoercível cansaço, obrigaram Simão, o Cireneu, que voltava do campo, a auxiliá-lo na condução do madeiro.

Constrangido, o lavrador tomou sobre os ombros o terrível instrumento de tortura e só então conseguiu Jesus levantar a cabeça e contemplar a multidão que se adensava em torno.

E observando a turba irada, oh! sublime transformação!… Notou que todos os circunstantes estavam algemados a tremendas cruzes, invisíveis ao olhar comum.

O primeiro que pode analisar particularmente foi Joab, o cambista, velho companheiro de Anás, nos negócios do Templo. Ele se achava atado ao lenho da usura. Vociferava, aflito, escancarando a garganta sequiosa de ouro. Não longe, Apolônio, o soldado da coorte, mostrava-se agarrado à enorme cruz da luxuria, repleta de vermes roazes a lhe devorarem o próprio corpo. Caleb, o incensador, berrava frenético, entretanto, apresentava-se jungido ao madeiro do remorso por homicídios ocultos. Amós, o mercador de cabras, arrastava a cruz da enfermidade que o forçava a sustentar-se em vigorosas muletas. José de Arimateia, o amigo generoso, que o seguia, discreto, achava-se preso ao frio lenho dos deveres políticos, e Nicodemus, o doutor da lei, junto dele, vergava, mudo, sob o estafante madeiro da vaidade.

Todas as criaturas daquele estranho ajuntamento traziam consigo flagelações diversas.

O Mestre reconhecia-as, acabrunhado.

Eram cruzes de ignorância e miséria, de revolta e concupiscência, de aflição e despeito, de inveja e iniqüidade.

Tentou concentrar-se em maior exame, contudo, piedosas mulheres em lágrimas acercaram-se dele, de improviso.

– Senhor, que será de nós, quando partires? – gritava uma delas.

– Senhor, compadece-te de nossa desventura! – suplicava outra.

– Senhor, nós te lamentamos!…

– Mestre, pobre de ti!

O Cristo fitou-as, admirado.

Todas exibiam asfixiantes padecimentos.

Viu que, entre elas, Maria de Cleofas trazia a cruz da maternidade dolorosa, que Maria de Magdala pranteava sob a cruz da tristeza e que Joana de Cusa, que viera igualmente às celebrações da Páscoa, sofria, sob o madeiro do casamento infeliz…

Azorragues lamberam-lhe a cabeça coroada de espinhos.

A multidão começava a mover-se, de novo.

Era preciso caminhar.

Foi então que o Celeste Benfeitor, acariciando a própria cruz que Simão passara a carregar, nela sentiu precioso rebento de esperança, com que o Pai Amoroso lhe agraciava o testemunho, a fim de que as sementes da renovação espiritual felicitassem a Humanidade. E, endereçando compassivo olhar às mulheres que o cercavam, pronunciou as inesquecíveis palavras do Evangelho:

– Filhas de Jerusalém, não choreis por mim!… Chorai, antes, por vós mesmas e por vossos filhos, porque dias virão em que direis: bem-aventurados os ventres que não geraram e os seios que não amamentaram!… Então, clamareis para os montes: Caí sobre nós! – e rogareis aos outeiros: Cobri-nos! – porque, se ao madeiro verde fazem isto, que se fará com o lenho seco?

Chico Xavier (médium)
Irmão X (espírito)                                                                                                                                                                           Livro: Cartas e Crônicas

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A CONVIVÊNCIA PERFEITA

Mário Vicente era vidrado na idéia das famílias espirituais, que se sobrepõem às precárias ligações sanguíneas.

– Pois é – dizia, entusiasmado, a um confrade espírita -, os Espíritos tendem a formar grupos afins nos caminhos da vida.

– Reencarnam juntos?

– Sim, sempre que possível, compondo lares ajustados e harmônicos, “um por todos, todos por um”.

– Você vive com sua família espiritual?

Mário Vicente esboçou um sorriso triste.

– Quem me dera! Lá em casa nosso relacionamento funciona mais na base de “cada um por si e Deus por todos”. Estamos longe de um entendimento razoável. É muita discussão, muita briga… Somos velhos adversários amarrados pelo sangue a fim de nos reconciliarmos.

– Recebeu alguma revelação?

– Não… nem seria preciso! Basta observar nossos conflitos.

– A barra é pesada?

– Bem… não é tanto assim. Gosto muito de minha mulher. Até pensei, durante os primeiros tempos, fosse uma alma gêmea. Ela é dedicada ao lar, mãe prestimosa. Ocorre que é um tanto voluntariosa e, não raro, agressiva. Faz tempestade em copo dágua. Considero a Ernestina meu teste de paciência. Nossos “santos” estranham-se freqüentemente.

– E os filhos?

– Adoro todos eles, mas são Espíritos imaturos que dão trabalho e não raro desgostos. Imagine que Pedro, o mais velho, envolveu-se com drogas! Júnior, o do meio, “aborrescente” típico, vive a me questionar; Jussara é delicada e sensível, mas puxou o gênio da mãe. Se contrariada, sai de perto! Um horror!

– São seus credores. Cobram prejuízos que você lhes causou em vidas anteriores…

– Certamente! Estou consciente desse compromisso. Tento fazer o melhor, sustentando a estabilidade do lar. No entanto, não é fácil. Às vezes perco o controle. Envergonho-me das brigas em que me envolvo… convenhamos, porém, que ninguém é de ferro…

Mário Vicente suspirou, emocionado:

– Sinto falta de um relacionamento familiar sustentado por legítima afinidade. Todos olhando na mesma direção, empenhados em cultivar a paz, o trabalho do bem, a amizade, a compreensão… Seria o Paraíso! Vejo-me como um retardatário, preso a compromissos decorrentes de besteiras que andei cometendo purgando meus débitos. Certamente aprontei muito!

– Espera alcançar a família espiritual?

– Claro! Hei de cumprir minhas obrigações, fazendo o melhor, a fim de merecer um retorno ao convívio de meus queridos, em estágios mais altos… Tenho convicção de que uma companheira muito amada espera por meu sucesso nas provações humanas para nos reunirmos.

Animado por seus sonhos Mário Vicente esforçava-se para superar as dificuldades de relacionamento junto à esposa e filhos. Tolerava suas impertinências. Fazia de tudo para ajudá-los. Exercitava carinho e compreensão.

O atendimento dos compromissos junto à família humana haveria de lhe proporcionar o sonhado reencontro com a família espiritual.

Passaram-se os anos.

Os filhos casaram, vieram netos, ampliou-se o grupo familiar, sucederam-se os problemas, mas nosso herói até que conseguiu sair-se relativamente bem, acumulando méritos.

Ao completar setenta e dois anos regressou à Pátria Espiritual.

Espírita esclarecido, não teve dificuldade para reconhecer-se livre do escafandro de carne, amparado por generosos benfeitores.

Após os primeiros tempos, já adaptado à nova situação, procurou dedicado orientador da instituição socorrista que o abrigara.

Foi logo pedindo, inspirado pelo ideal que acalentava:

– Estimaria, se possível, receber noticias de minha família espiritual…

– Seus familiares estão bem, nas lutas de sempre, sofrendo e aprendendo, como todos os homens.

– Estão reencarnados? Pensei que os encontraria aqui!

– Você conviveu com eles até alguns meses atrás. Não sabe que continuam na Terra?

– Não me refiro à família humana. Anseio abraçar os entes queridos de priscas eras, e, sobretudo, a amada perdida nas brumas do passado…

O mentor sorriu:

– Falou bonito, mas está equivocado, meu amigo. Sua família espiritual é aquela que lhe marcou a experiência na carne. Sua esposa é uma alma de eleição. Os filhos são antigos companheiros de jornada evolutiva. Desde remoto passado vocês vivem experiências em comum.

– Mas, e os nossos problemas de relacionamento?

– Haveriam de experimentá-los mesmo que se transferissem para a esfera do Cristo. Como ensinava o Mestre, ainda há muita dureza no coração humano.

– Que devo fazer?

– Você se julgava um retardatário. Na verdade, não obstante suas limitações, está um pouco à frente do grupo familiar, ainda lento na aquisição de valores espirituais. Tem, portanto, o dever de ajudá-lo. Foi essa a sua tarefa na última existência. Será esse o seu compromisso agora.

E Mário Vicente, que tanto ansiara por sua família espiritual, constatou que estivera com ela durante décadas, sem se dar conta disso.

Muita água rolaria no rio da vida até que todos ganhassem asas, habilitando-se à convivência perfeita.

Richard Simonetti                                                                                                                                                                         Revista Reformador Março de 1997

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MESMO FERIDO

O rapaz fora rudemente esbofeteado num baile. Em sã consciência, não sentia culpa alguma. Nada fizera que pudesse ofender. Por mera desconfiança, o agressor esmurrara-lhe o rosto. “Covarde, covarde” – haviam dito os circunstantes.

Ele, porém, limpando a face sanguinolenta, compreendeu que, desarmado, não seria prudente medir forças. Jurara, porém, vingar-se. E, agora, munido de um revólver, aguardava ocasião. Um amigo, no entanto, percebendo-lhe a alma sombria, instou muito e conduziu-o a uma reunião da Doutrina Espírita.

Desinteressado, ouviu preces e pregações, comentários e apontamentos edificantes.

Ao término da sessão, porém, um amigo espiritual, pela mão de um dos médiuns presentes, escreveu bela página sobre o perdão, na qual surgiam afirmações como estas:

– A justiça real vem de Deus.

– Ninguém precisa vingar-se.

– Mesmo ferido, serve e perdoa.

– A corrigenda do ofensor pode ser amanhã.

O jovem ouviu atentamente e saiu pensando, pensando…

Na manhã seguinte, topou, face a face, o desafeto, mas recordou a lição e conteve-se. Por uma semana se repetiu o reencontro, e, por sete vezes, freou-se prudentemente.

Dias depois, porém, retornado ao trabalho, encontra um enterro e descobre-se. Só então vem a saber que o grande esmurrador, aquele que o ferira, morrera na véspera, picado por escorpião.

Chico Xavier (médium)
HilárioSilva(espírito)                                                                                                                                                                                        
Livro: Idéias e Ilustrações

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